Justiça

Recurso no TJ-PB: Influenciador condenado a 11 anos pode ser solto?

Fachada do Tribunal de Justiça da Paraíba onde ocorre julgamento de recurso de influenciador condenado
Tribunal de Justiça da Paraíba julga recurso que pode soltar influenciador condenado por pornografia infantojuvenil.

A Câmara Criminal do Tribunal de Justiça da Paraíba julga nesta terça-feira (3) um recurso que pode converter a prisão preventiva de Hytalo Santos e do marido, Israel Vicente, em medida cautelar diversa — ou até mesmo determinar a soltura da dupla. A decisão ocorre meses após a condenação em primeira instância por produção de material pornográfico envolvendo adolescentes.

O casal cumpre preventiva no Presídio Desembargador Flóscolo da Nóbrega, em João Pessoa, desde agosto de 2025. O julgamento de hoje não revisa o mérito da condenação, mas analisa a necessidade da custódia antecipada enquanto tramitam os recursos. A sessão acontece em formato semipresencial.

O que está em jogo na sessão de hoje

A defesa argumenta que a manutenção da preventiva configura antecipação de pena, já que a sentença não transitou em julgado. O Ministério Público, por sua vez, sustenta que a gravidade dos crimes e o risco de reiteração justificam o encarceramento. Os desembargadores podem:

  • Manter a prisão preventiva;
  • Substituir por prisão domiciliar com monitoramento eletrônico;
  • Decretar a liberdade provisória com medidas cautelares (comparecimento periódico, proibição de uso de redes sociais).

Condenação pesada e patrimônio bloqueado

Em fevereiro de 2026, o juiz Antônio Rudimacy Firmino de Sousa, da Comarca de Bayeux, impôs penas de 11 anos e 4 meses a Hytalo e 8 anos, 10 meses e 20 dias a Israel. Ambas em regime inicialmente fechado. O crime: produção de conteúdo pornográfico com adolescentes, tipificado no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Paralelamente, a Justiça do Trabalho determinou o bloqueio de bens, veículos, empresas e valores do casal — teto estimado em R$ 20 milhões. O Ministério Público do Trabalho (MPT-PB) apontou indícios de ocultação de patrimônio e movimentações atípicas. A medida visa garantir futura indenização por dano moral coletivo em ação que apura tráfico de pessoas para exploração sexual e trabalho análogo à escravidão.

Da viralização à Operação Lavagem

O caso ganhou escala nacional em agosto de 2025, após vídeo do youtuber Felca (4 milhões de inscritos) expor a dinâmica de convívio com adolescentes na residência do influenciador — que somava 16,9 milhões de seguidores em uma única plataforma. Dias depois, a Justiça bloqueou perfis, determinou desmonetização e expediu mandados de busca.

A prisão ocorreu em 15 de agosto em Carapicuíba (SP), onde o casal foi localizado em rota de fuga, segundo a Polícia. A transferência para a Paraíba aconteceu no dia 28 do mesmo mês.

O desdobramento mais recente veio em 1º de julho de 2026: o Gaeco deflagrou operação contra lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. Cinco mandados cumpridos em João Pessoa, Campina Grande e Recife apuram origem em jogos ilegais e pagamentos em espécie ligados ao “jogo do bicho”. A investigação é ramificação direta do inquérito sobre exploração de imagem de menores.

Frentes jurídicas abertas e risco sistêmico

Além da ação penal condenada e da investigação por lavagem, Hytalo responde a 14 processos ativos na Justiça estadual (áreas criminal e cível) e a ação no MPT-PB por tráfico de pessoas e condições análogas à escravidão. Há ainda 14 processos já arquivados.

A tese da defesa para anular a condenação baseia-se na “ECA Digital” e na alegação de que o conteúdo seria manifestação cultural periférica (BregaFunk), protegida pela liberdade de expressão. O pedido tramita na Vara da Infância de Bayeux, sem prazo para decisão.

O que observar nas próximas semanas

A decisão de hoje sinaliza como o tribunal equilibra garantias processuais e proteção integral de adolescentes em casos de grande repercussão midiática. Se a preventiva cair, abre-se precedente para réus condenados em primeira instância por crimes graves contra vulneráveis aguardarem recurso em liberdade.

Para o mercado de influência e plataformas, o caso reforça a necessidade de compliance rigoroso na verificação de idade e conteúdo — o Google já desmonetizou o canal e o TikTok baniu o perfil pela segunda vez em 2025. O desenrolar da ação trabalhista e da operação de lavagem deve ditar o alcance real da responsabilização patrimonial do casal e de eventuais parceiros comerciais.