Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou a capital fluminense no segundo turno de 2022 com uma virada que reescreve o mapa político do estado. O presidente subiu 7,63 pontos percentuais entre as duas rodadas e avançou em todas as zonas eleitorais cariocas na comparação com o primeiro turno.
Até 2018, bolsonaristas zombavam dizendo que o PT só existia na praça São Salvador, em Laranjeiras. Oito anos depois, o antigo “enclave de resistência” engoliu a cidade inteira — da Zona Sul à Ilha de Paquetá, rebatizada de “Ilha Vermelha” nas redes sociais.
Os números que explicam a virada
O crescimento não foi uniforme: foi sistêmico. Confira os destaques por região:
- 16ª Zona Eleitoral (Glória, Catete, Santa Teresa, Laranjeiras): 64,17% dos votos válidos;
- Zona Sul e Centro: vitória consolidada em bairros historicamente conservadores;
- Grande Tijuca e Ilha de Paquetá: adesão majoritária ao petista;
- Zona Oeste: avanço expressivo em área dominada por milícias — o chamado “milagre” eleitoral.
O choque em São Gonçalo
A surpresa mais ruidosa veio do segundo maior colégio eleitoral do estado. Em São Gonçalo, reduto do bolsonarista Douglas Ruas, Lula obteve 48,02% contra 51,98% de Flávio Bolsonaro (PL). A diferença de menos de 4 pontos percentuais em território considerado “intransponível” acendeu o alerta no Palácio Guanabara.
Vizinha de Niterói — berço da mobilização estudantil que impulsionou a campanha petista nacionalmente —, São Gonçalo mostrou que a onda de mobilização juvenil vazou as fronteiras municipais e chegou ao eleitorado popular da Baixada.
O racha no governo estadual
Ruas, eleito governador após a anulação dos votos de Garotinho, fez campanha quase separatista, contrapondo interior e capital. Agora, pressionado pelo resultado, promete governar para todos. Nos bastidores, aliados articulam para afastar Flávio Bolsonaro da influência direta no governo estadual, temendo que a rejeição ao clã contamine a gestão.
Mas o efeito mais relevante aparece no tabuleiro jurídico.
O fantasma do segundo turno estadual
Cresce nas redes — no modelo do “Exército do Lula” — um movimento pela realização de segundo turno na eleição para governador do Rio. A ação já tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).
Especialistas ouvidos reservadamente consideram improvável que a Corte, já sob pressão institucional, compre essa briga. O argumento central é que a legislação eleitoral não prevê segundo turno para cargos majoritários estaduais quando o vencedor atinge maioria absoluta no primeiro turno — o que ocorreu tecnicamente após a anulação dos votos do adversário.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o próximo capítulo: a capacidade de Ruas de descolar a imagem do bolsonarismo sem perder a base; a articulação do PT para transformar a vitória na capital em estrutura partidária no interior; e a resposta do STF à ação pelo segundo turno — que, se acolhida, jogaria o Rio em instabilidade política inédita. Para investidores e empresários, o sinal claro é: o Rio de 2024 não é o Rio de 2018, e apostar no antigo mapa eleitoral é erro de precificação.
