A ONU confirmou que 189 jornalistas foram assassinados no biênio 2024-2025, o maior registro em uma década, e o secretário-geral António Guterres alerta que drones e novas armas estão redefinindo o perigo em zonas de conflito. O dado expõe uma falha sistêmica de responsabilização que vai muito além da liberdade de imprensa — ela sinaliza instabilidade institucional onde o capital decide se aloca.
O novo campo de batalha: tecnologia contra testemunhas
O Dia Internacional pelo Fim da Impunidade, marcado em 2 de novembro, homenageia os franceses Ghislaine Dupont e Claude Verlon, executados no Mali em 2013. Treze anos depois, o cenário mudou. Segundo a ONU, muitas das mortes recentes ocorreram em regiões de guerra atingidas por ataques com drones, transformando a cobertura jornalística em alvo de precisão militar.
Essa evolução tecnológica não ameaça apenas repórteres. Ela compromete a verificação independente de fatos em áreas de conflito — justamente onde cadeias de suprimento, infraestrutura energética e riscos geopolíticos são avaliados por analistas de risco e fundos de investimento.
Impunidade: o indicador que o mercado subestima
Para Samira de Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a cobrança é direta: governos precisam investigar e processar os mandantes. A campanha da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) resume a questão em três perguntas que ficam sem resposta na maioria dos casos:
- Quem ordenou o assassinato?
- Quem planejou a execução?
- Quem é o responsável final?
Quando essas perguntas não têm resposta, o sinal para o setor privado é claro: o Estado de Direito é frágil ou seletivo. Histórico de impunidade correlaciona-se com maior risco regulatório, insegurança contratual e volatilidade cambial.
Por que o número de 2024-2025 assusta analistas de risco
O salto para 189 mortes supera o biênio 2014-2015, período marcado pela ascensão do Estado Islâmico e conflitos na Síria e Iraque. A diferença agora é a pulverização: as mortes não se concentram em um único teatro de guerra. Elas aparecem em democracias frágeis, autocracias consolidadas e zonas cinzentas onde atores não estatais operam com tecnologia de Estado.
Para quem gere ativos, isso significa que a “segurança da informação” — no sentido mais literal de ter olhos no chão confiáveis — tornou-se um ativo escasso e caro. Seguros para correspondentes de guerra dispararam. Agências de notícias reduzem presença física. O vácuo é preenchido por narrativas controladas por governos ou grupos armados.
O que observar daqui para frente
A próxima atualização do relatório da UNESCO trará o desdobramento por país e tipologia de ataque. Até lá, três vetores merecem monitoramento contínuo: a regulamentação internacional do uso de drones contra alvos “duvidosos”, a pressão de organismos multilaterais por tribunais especiais para crimes contra jornalistas e a resposta do setor de seguros e segurança privada à nova curva de risco. Quem ignora a correlação entre silêncio forçado e opacidade de mercado assume um passivo invisível — que costuma cobrar a fatura no pior momento.
