Lula não apenas venceu no Rio de Janeiro — ele redesenhou o mapa eleitoral da capital em oito anos. O PT, que não ganhava na cidade desde 2014, avançou 7,63 pontos percentuais entre os turnos e levou todas as zonas eleitorais. O que parecia impossível virou realidade nas urnas.
Mas a virada não aconteceu por acaso. Por trás dos números há um padrão que explica como a resistência de uma praça em Laranjeiras se espalhou pela Zona Sul, atravessou a Zona Oeste e quase tomou São Gonçalo. Entender esse movimento é essencial para quem acompanha o xadrez político do segundo maior colégio eleitoral do país.
O avanço zona a zona: onde o PT cresceu mais
O crescimento não foi uniforme — e é nos detalhes que a estratégia aparece. Na 16ª zona eleitoral (Glória, Catete, Santa Teresa e Laranjeiras), Lula cravou 64,17% dos votos válidos. A antiga “ilha da resistência” virou fortaleza.
O presidente também venceu na Zona Sul tradicional, no Centro, na Grande Tijuca e até na Ilha de Paquetá, rebatizada de “Ilha Vermelha” nas redes. O dado mais surpreendente, porém, veio da Zona Oeste: região historicamente dominada por milícias e reduto bolsonarista, onde Lula cresceu em relação a 2022.
- Zona Sul / Centro / Tijuca / Paquetá: vitória direta no 2º turno
- 16ª Zona (Laranjeiras e entorno): 64,17% para Lula
- Zona Oeste: avanço numérico em área de influência miliciana
- São Gonçalo: 48,02% — quase empatou no reduto de Douglas Ruas
São Gonçalo: o susto no quintal do bolsonarismo
A maior surpresa da noite não foi na capital. Em São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do estado e base do governador Douglas Ruas, Lula fez 48,02% contra 51,98% de Flávio Bolsonaro. Uma diferença de menos de 4 pontos em território que era considerado intransponível.
O município faz divisa com Niterói, onde um levante estudantil ganhou as ruas semanas antes da eleição. Aquela mobilização jovem não ficou contida — cruzou a ponte e irrigou a campanha petista na Baixada. O efeito cascata pegou a máquina local de surpresa.
Ruas sentiu o baque. Eleito governador após a anulação dos votos de Garotinho, com discurso quase separatista contrapondo interior e capital, agora promete governar para todos. Aliados já articulam para tirar Flávio Bolsonaro da esfera de influência do Palácio Guanabara.
O que moveu o eleitor fluminense?
Não há causa única. A virada combina rejeição ao bolsonarismo local, mobilização de base nas periferias e na juventude universitária, além de uma campanha de chão que soube traduzir demandas concretas — saúde, transporte, segurança — em linguagem acessível.
O PT fluminense, historicamente fraco na capital, aprendeu a falar com o eleitor médio carioca. Não por acaso, o crescimento veio justamente onde a máquina bolsonarista parecia mais sólida: a Zona Oeste e a Baixada.
O fantasma do segundo turno estadual
O resultado reacendeu um debate jurídico que já está no STF: a possibilidade de segundo turno para governador no Rio. A ação argumenta que a anulação dos votos de Garotinho alterou a dinâmica da disputa e que Ruas não atingiu maioria absoluta dos votos válidos.
Especialistas ouvidos pela reportagem consideram improvável que o Supremo compre essa briga no momento atual de tensão institucional. Mas o movimento ganhou as redes no modelo “Exército do Lula” — o que mantém a pressão política viva independentemente do desfecho judicial.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar os próximos capítulos: a capacidade de Ruas de entregar gestão sem o respaldo bolsonarista que o elegeu; a reorganização da oposição de direita no estado após o baque nas urnas; e a tradução do capital eleitoral de Lula no Rio em apoio parlamentar para pautas federais. Quem opera no mercado político fluminense deve monitorar a reforma do secretariado estadual — os primeiros nomes vão sinalizar se o governador vai para o confronto ou para a negociação.
