O deputado André Janones desembarcou em Buenos Aires com a equipe do marqueteiro Sidônio Palmeira, mas a presença brasileira não significa aval do Planalto a Sergio Massa. A visita expõe a estratégia silenciosa do PT para 2027 enquanto Lula adota cautela diplomática.
O movimento pegou analistas de surpresa: o governo brasileiro evita endossar nomes, mas operadores petistas já articulam nos bastidores portenhos. A contradição aparente esconde uma aposta calculada na sobrevivência do peronismo.
Por que Lula não quer escolher o candidato
Fontes oficiais confirmam: o presidente brasileiro tende a apoiar quem tiver mais chances de vencer Javier Milei. Hoje, as pesquisas colocam o governador Axel Kicillof muito à frente de Massa na preferência do eleitorado argentino.
A neutralidade pública preserva a relação institucional com quem quer que ocupe a Casa Rosada. Afinal, Brasil e Argentina são parceiros comerciais inseparáveis, independentemente da ideologia de plantão.
Mas nos bastidores, a máquina petista já trabalha. Estrategistas que atuaram na campanha de Massa em 2023 foram acionados pelo próprio ex-candidato, sumido da cena desde a derrota no segundo turno.
O xadrez das primárias e o risco da fragmentação
A legislação argentina exige primárias obrigatórias (PASO), embora Milei tente extingui-las sem sucesso até aqui. O peronismo teme repetir 2023: dividido, perdeu a eleição ganha no primeiro turno.
- Cenário ideal: Candidato único peronista nas primárias.
- Risco real: Massa e Kicillof em chapas diferentes, rachando o voto.
- Variável Cristina: A ex-presidente, condenada e em prisão domiciliar, ainda dita os rumos do movimento.
Kicillof e Massa mantêm relações tensas com Cristina Kirchner. O governador foi seu ministro da Economia, mas rompeu após a condenação. Massa também tem rusgas antigas. Ainda não se sabe quem herdará o apoio dela — fator decisivo nas primárias.
O que une os peronistas: a volta ao poder
A história recente ensina: em 2019, Cristina aceitou ser vice de Alberto Fernández após uma década sem se falar. Venceram a eleição e brigaram durante os quatro anos de governo. A pragmática peronista costuma falar mais alto que as mágoas pessoais.
O governo brasileiro aposta nessa união forçada. Separados, os peronistas têm “poucas chances” contra Milei, segundo a avaliação de Brasília. Por isso a presença de Janones e da equipe de Sidônio agora, um ano antes do pleito: organizar a casa antes que a disputa interna vire guerra aberta.
O que observar nos próximos meses
A definição das alianças partidárias ditará se haverá primárias competitivas ou chapa única. A posição de Cristina Kirchner — se apoia Kicillof, Massa ou lança terceira via — será o termômetro real da força de cada pré-candidato.
Para o empresariado brasileiro, o sinal de alerta está ligado: a política econômica argentina em 2027 dependerá de quem vencer a guerra interna peronista hoje. A visita de Janones não foi turismo político; foi reconhecimento de que o tabuleiro já está montado.
