Economia

O segredo do preço da carne que virou arma eleitoral nos EUA

Carne bovina exposta em supermercado com etiquetas de preço alto, simbolizando inflação alimentar nos EUA
Preços recordes da carne bovina viram arma política na disputa pelo Senado no Mississippi.

A carne bovina, símbolo da mesa americana, atingiu preços históricos e virou o centro de uma batalha política que pode definir o controle do Congresso. O que começou como um problema climático no campo escalou para uma crise de custo de vida que nenhum candidato consegue ignorar.

No Mississipi, a disputa pelo Senado expôs o abismo entre o discurso oficial e a realidade do supermercado. A senadora republicana Cindy Hyde-Smith sugeriu que consumidores trocassem de proteína diante da alta. A resposta da oposição foi imediata: um vídeo com eleitores declarando: “Escolher outra proteína? Prefiro escolher outro senador”.

O rebanho que encolheu 75 anos em décadas

A raiz do problema não está em Washington, mas nas pastagens. Secas sucessivas e o custo explosivo de grãos e ração forçaram pecuaristas a liquidar matrizes ou abandonar a atividade. O resultado é um choque de oferta brutal:

  • Rebanho nacional no menor nível desde 1951, segundo o USDA.
  • Mesmo com bois mais pesados e eficientes, a carne disponível caiu vertiginosamente.

Essa escassez estrutural empurrou o varejo para patamares recordes. Em setembro, a libra da carne moída custava US$ 6,79 — alta de 7,4% em um ano. Para efeito de comparação, em janeiro de 2025, na posse de Trump, o mesmo quilo saía por US$ 5,55. São 22,34% de aumento em menos de 24 meses.

A aposta perigosa nas importações

Para frear a inflação no varejo, o governo abriu as portas para o produto estrangeiro. Em julho de 2026, a carne bovina foi poupada das novas tarifas contra o Brasil. Não bastou. No fim de agosto, Trump anunciou uma cota extra de 300 mil toneladas com tarifa zero.

A medida aliviou momentaneamente as gôndolas, mas acendeu a revolta na base eleitoral mais fiel: os pecuaristas. Associações de criadores denunciam a falta de políticas de recomposição do plantel enquanto a concorrência externa achata as margens.

O produtor paga a conta

O ciclo da pecuária é longo — leva anos para reverter a curva do rebanho. Enquanto o varejo segue caro, o preço pago ao criador recua pressionado pela oferta importada. A arroba nos EUA ronda hoje US$ 113,14, queda frente aos US$ 120 praticados no mesmo período do ano passado.

O pecuarista fica espremido: custos de produção altos, preço de venda ao frigorífico caindo e sem fôlego financeiro para reter fêmeas e reconstruir o plantel.

O que observar daqui para frente

A equação não fecha no curto prazo. A recomposição do rebanho depende de decisões de acasalamento que só impactam a oferta daqui a três ou quatro anos. Até lá, a carne bovina continuará sendo um dos principais vetores da inflação de alimentos, mantendo o tema vivo no debate público muito além das eleições de meio de mandato. O eleitor sentirá no bolso; o político, nas urnas.