A inadimplência no Brasil atingiu 84,2 milhões de pessoas em setembro, novo recorde da série histórica da Serasa. O avanço de 300 mil nomes em apenas um mês esconde uma pressão silenciosa sobre o caixa das famílias.
O que esse número não mostra de imediato é como ele reconfigura o acesso a crédito, o consumo e até a contratação nos próximos trimestres.
O retrato numérico que assusta
Em agosto, eram 83,9 milhões de consumidores negativados. A alta mensal de 0,4% parece modesta, mas a comparação anual revela o tamanho do problema: crescimento de 6% frente ao mesmo período do ano anterior.
Desde 2020, a curva não para de subir. A pandemia iniciou o ciclo, juros altos alongaram a travessia e a inflação de serviços fez o resto.
- 84,2 milhões de CPFs com restrição em setembro
- 300 mil novos nomes em 30 dias
- 6% de alta na comparação anual
- 4 anos de recordes sucessivos
O efeito direto no bolso do empresário
Para quem vende a prazo ou financia clientes, o cenário muda a regra do jogo. A cada 100 consumidores que entram na loja, quase 40 carregam restrição ativa.
Isso força duas respostas imediatas: aperto na análise de crédito e elevação do custo de funding para compensar o risco. Quem não ajusta a régua, perde margem.
Mas o impacto mais relevante aparece no varejo de ticket médio alto.
Setores sob pressão: veículos, móveis e eletros
Financiamentos de longo prazo são os primeiros a travar. Bancos e financeiras endurecem score, exigem entrada maior e alongam prazos de aprovação.
O resultado imediato: queda na conversão de vendas parceladas e aumento de devoluções de propostas já encaminhadas.
No varejo de essenciais, o movimento é outro. O consumidor troca marcas, reduz quantidade e prioriza pagamento à vista — o que comprime o faturamento sem necessariamente derrubar o fluxo de caixa.
O que os dados de renda revelam
Faixas de renda até três salários mínimos concentram a maior densidade de novos negativados. São trabalhadores formais e informais que viram o custo de vida subir acima da recomposição salarial.
Acima de cinco salários, a inadimplência cresce em ritmo menor, mas chama atenção o avanço de dívidas com cartão de crédito rotativo e cheque especial — sinais de descontrole de caixa, não de falta de renda.
Cenários para os próximos meses
O último trimestre costuma trazer alívio sazonal: 13º salário, restituição de IR para quem declarou no fim do prazo e campanhas de renegociação (Feirão Serasa, Mutirão dos Bancos).
Historicamente, janeiro registra queda no total de negativados. A dúvida é se o volume de acordos será suficiente para inverter a tendência de alta estrutural.
Três variáveis definem o rumo: taxa Selic, emprego formal e inflação de alimentos. Se duas piorarem juntas, o recorde de setembro será apenas a base do próximo.
O que observar daqui pra frente
Monitore a taxa de renovação de crédito no seu setor. Se a aprovação cair abaixo de 60% das propostas, o gargalo não é mais demanda — é risco.
Acompanhe também o índice de recuperação de carteira vencida acima de 90 dias. Quando ele para de subir, costuma antecipar a virada do ciclo em 60 a 90 dias.
Por fim, mantenha régua de cobrança ativa nos primeiros 15 dias de atraso. É nessa janela que a recuperação custa menos e preserva o relacionamento.
