Internacional

Montadoras pressionam Congresso dos EUA por veto total a carros chineses: o que está em jogo

Carros chineses estacionados diante do Capitólio dos EUA com bandeiras dos dois países
Montadoras globais pedem ao Congresso dos EUA proibição total de veículos chineses

As maiores fabricantes de automóveis do mundo acabam de fazer um apelo direto ao Congresso americano: proíbam permanentemente a entrada de veículos chineses no mercado dos EUA. O pedido chega numa semana decisiva, quando parlamentares retornam para uma sessão relâmpago pós-eleições de meio de mandato.

O movimento expõe uma fratura geopolítica que vai muito além de tarifas comerciais. Dados de vigilância, subsídios estatais e uma enxurrada de importações que já redesenhou o mercado europeu estão no centro da disputa.

O gatilho: uma carta assinada pelos gigantes do setor

John Bozzella, CEO da Aliança para Inovação Automotiva — entidade que representa General Motors, Toyota, Volkswagen e praticamente todas as grandes montadoras ocidentais — enviou carta aos legisladores nesta segunda-feira (2). O texto é taxativo: o mercado americano precisa de proteção contra importações chinesas que trazem “riscos de vigilância” e ameaçam investimentos de gerações nas comunidades industriais dos EUA.

A Aliança não está sozinha. A OICA (Organização Internacional de Construtores de Automóveis), também presidida por Bozzella, endossa a pressão. O argumento central combina segurança nacional com competitividade industrial.

Por que a Europa virou o caso de estudo obrigatório

Os números europeus assustam a indústria americana. Nos primeiros oito meses de 2024, a União Europeia importou mais de 1,1 milhão de veículos vindos da China — volume superior a todo o ano de 2023. A aceleração é vertiginosa e serve de alerta: sem barreiras firmes, o mesmo padrão pode se repetir do lado oeste do Atlântico.

Bozzella citou nominalmente o “padrão de comportamento desleal da China” e a incapacidade europeia de conter o avanço. Para as montadoras americanas, o continente virou laboratório do que acontece quando a porta se abre sem salvaguardas robustas.

O xadrez legislativo: tempo curto, maiorias incertas

O projeto bipartidário no Senado foi aprovado em comissão em julho. A versão da Câmara já conta com mais de 100 coautores. Mas há um entrave político: assessores e lobistas admitem que, se os democratas conquistarem o controle do Congresso, talvez não haja tempo hábil para votar a proibição antes do fim da sessão, em dezembro.

Em setembro, os autores do Senado concordaram em adiar a tramitação acelerada justamente para depois das eleições de meio de mandato. A janela agora é estreita e o resultado das urnas ditou o ritmo.

O fator Trump: uma variável que assusta a indústria

Em entrevista à Fox News no mês passado, Donald Trump disse que aceitaria montadoras chinesas fabricando nos EUA. A declaração gerou alarme imediato no setor. Para as fabricantes estabelecidas, a possibilidade de produção local por empresas chinesas — mesmo com tarifas acima de 100% sobre veículos elétricos importados — abriria brecha para transferência de tecnologia e coleta de dados de motoristas americanos.

Vale lembrar: uma regulamentação do governo Biden, implementada no início de 2025, já vetou na prática a venda ou fabricação de veículos de passageiros por empresas chinesas em solo americano, justamente pelo risco de envio de dados sensíveis para Pequim.

O contra-ataque diplomático de Pequim

O Ministério das Relações Exteriores da China reagiu às propostas anteriores classificando-as como “repressão irracional”. A diplomacia chinesa exige que Washington “respeite as leis da economia de mercado e os princípios da concorrência leal”. O discurso, porém, esbarra na realidade de subsídios estatais massivos e barreiras não-tarifárias que fecham o mercado chinês a concorrentes estrangeiros.

O que observar nas próximas semanas

A votação do projeto bipartidário no plenário do Senado e na Câmara será o termômetro definitivo. Se aprovado ainda este ano, o veto permanente vira lei antes da posse do novo Congresso. Caso contrário, a matéria morre e precisará ser reapresentada em 2025 — com nova composição parlamentar e, possivelmente, nova Casa Branca.

Para investidores e executivos, três variáveis decidem o jogo: o resultado final das eleições de meio de mandato, a disposição da liderança democrática em pautar o tema na sessão lame-duck e a reação de Pequim a eventuais sanções secundárias. O tabuleiro está montado. A próxima jogada é legislativa.