A psicanalista Elisama Santos alerta: a tristeza tem função biológica e social, mas o mundo corporativo insiste em tratá-la como falha. O resultado aparece no absenteísmo, na rotatividade e no engajamento que não volta.
No episódio mais recente do Missão Saber, a especialista disseca como o luto mal gerido vira trauma organizacional — e por que a “positividade tóxica” custa mais caro do que parece.
O que a ciência chama de função pró-social
Santos define a tristeza como mecanismo de regroupamento. Quando alguém perde — um projeto, um colega, um contrato —, o recolhimento natural serve para recalibrar expectativas e pedir suporte ao grupo.
Empresas que exigem “resiliência imediata” interrompem esse ciclo. O colaborador volta ao trabalho antes de processar a perda, carrega o peso invisível e, meses depois, apresenta queda de desempenho ou pede demissão.
Trauma corporativo: duas rotas, mesmo destino
A psicanalista mapeia duas origens que espelham o ambiente de trabalho:
- Choque agudo: demissão em massa, falha catastrófica de produto, morte de colega. “Muita coisa em pouco tempo”, sem recursos para digerir.
- Erosão crônica: microagressões, metas irreais, falta de reconhecimento. Anos de violência emocional sutil que minam a autoestima até o profissional não acreditar mais na própria capacidade.
Ambas criam o mesmo sintoma: a sensação de que “não posso confiar nem em mim”.
A armadilha da mania produtiva
“Estamos querendo pregar para a sociedade que a gente tem que viver em mania, viver surtado”, disse Santos. No escritório, isso se traduz em culturas que celebram o hustle, a disponibilidade 24/7 e a supressão de emoções “negativas”.
O custo oculto: equipes que não choram juntas não aprendem juntas. A inovação exige risco; o risco gera perdas; perdas não processadas geram aversão ao risco. O ciclo se fecha.
Como líderes falham na hora de acolher
O erro mais comum é oferecer soluções. “Vai passar”, “foque no lado bom”, “seja forte”. Santos propõe o inverso: presença sem receita.
“Tô aqui pra você. Se quiser chorar, conversar, xingar Deus, tô aqui. Não vou te dizer como deve sofrer.”
Traduzido para gestão: tirar o peso da performance imediata, liberar prazos flexíveis, perguntar “o que você precisa hoje?” — e aceitar a resposta, mesmo que seja “nada”.
O que observar nos próximos trimestres
Empresas que institucionalizarem rituais de luto — despedidas formais de projetos cancelados, memoriais de ciclos encerrados, espaços seguros para falar de burnout — tendem a reter talento sênior e reduzir licenças médicas longas.
O episódio completo com Elisama Santos estará disponível no YouTube do UOL e no Spotify a partir de terça-feira (03). Para quem lidera pessoas, assistir não é opcional: é pesquisa de clima antecipada.
