Economia

Lucro de US$ 50 bi: o segredo que impede novas refinarias no Ocidente

Executivos de petroleiras ocidentais analisam gráficos de lucros recordes enquanto refinarias envelhecem ao fundo
Grandes petroleiras lucram US$ 50 bi no trimestre, mas evitam investir em novas refinarias.

As cinco maiores petroleiras ocidentais embolsaram mais de US$ 50 bilhões em lucro líquido no terceiro trimestre, mas a torrente de caixa não está financiando a expansão do parque de refino que governos e mercados clamam. Em vez de erguer novas unidades, ExxonMobil, Chevron, BP, Shell e TotalEnergies destinam os recursos a recompras de ações e redução de dívida.

Essa decisão contradiz apelos diretos da Casa Branca e do G7 por mais capacidade de processamento. A consequência imediata é a manutenção de margens de refino estratosféricas — e o risco de que qualquer choque geopolítico extra transforme a atual escassez em uma crise de abastecimento real.

Onde o dinheiro está indo de fato

A Shell elevou seu programa de recompra para US$ 5 bilhões apenas no trimestre atual. A Exxon traçou um plano de US$ 20 bilhões em buybacks até 2027. A BP, por sua vez, prioriza o desalavancagem do balanço. O denominador comum é a recusa em comprometer capital em ativos de longa maturação.

Para o investidor, o sinal é claro: a gestão de capital conservadora prevalece sobre a expansão operacional. Isso sustenta a remuneração ao acionista no curto prazo, mas posterga a solução estrutural para a rigidez da oferta de derivados.

Por que a capacidade encolheu 10% em meses

A combinação de três vetores criou a tempestade perfeita para as margens de refino:

  • Guerra no Irã: interrupção de embarques pelo Estreito de Ormuz.
  • Ataques a refinarias russas: redução da oferta de diesel no mercado global.
  • Restrições de Pequim e Moscou: limitaram exportações de derivados, apertando ainda mais o balanço.

Resultado: cerca de 10% da capacidade global de refino saiu de operação em 2024. As unidades restantes operam no limite físico, extraindo cada barril possível de gasolina, diesel e querosene de aviação.

A barreira invisível: a transição energética

Executivos do setor são diretos: não há caso de negócio para uma refinaria greenfield na Europa ou nos EUA. Allen Good, analista da Morningstar, resume o dilema: “Ninguém construirá uma refinaria do zero considerando o tempo que isso levaria, diante da queda projetada na demanda por combustíveis fósseis”.

Meg O’Neill, CEO da BP, confirmou a postura: a companhia não venderá mais ativos de refino — após se desfazer da unidade de Gelsenkirchen —, mas também não ampliará capacidade “neste momento”. A Phillips 66 e a Valero ecoam a estratégia: aportes de dezenas ou centenas de milhões para otimizar ativos existentes, não bilhões para novos complexos.

O xadrez geográfico: Oriente cresce, Ocidente encolhe

Desde 2019, a balança de capacidade inverteu-se radicalmente. Dados do Federal Reserve Bank de Dallas mostram:

  • China e Oriente Médio: +4,4 milhões de barris/dia.
  • Europa e América do Norte: -2,1 milhões de barris/dia.

Nigéria, Índia e México colocaram novas refinarias em operação recentemente. A Valero comprou a refinaria ociosa da LyondellBasell em Houston por US$ 320,5 milhões, com plano de reiniciar 165 mil bpd até o fim de 2027 — uma exceção que confirma a regra: trata-se de reativar ativo brownfield, não construir do zero.

Cenário-base para 2025: diesel a US$ 100 o barril de crack spread

Joe DeLaura, estrategista sênior do Rabobank, projeta Brent médio a US$ 120 no primeiro semestre do próximo ano. O crack spread do diesel — a margem bruta de refino — deve orbitar US$ 100 por barril no mesmo período.

Esses números assumem um cenário de tensão contida. Se a retórica de “nova Fúria Épica” do ex-presidente Trump se materializar em ataques mútuos à infraestrutura energética no Golfo, a equação muda drasticamente. DeLaura alerta: “Tanto Irã quanto EUA provavelmente atacarão infraestrutura em escala muito maior. Isso elevará crack spreads e o preço do petróleo simultaneamente”.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o ritmo dos próximos trimestres: a velocidade da recuperação da capacidade russa, a disposição chinesa em liberar cotas de exportação de diesel e a evolução dos estoques globais de derivados médios. Para o tomador de decisão, a lição é pragmática: a oferta ocidental permanecerá inelástica. Qualquer plano de negócios que dependa de preços normalizados de diesel ou gasolina em 2025 carrega um viés de otimismo perigoso.