A proibição das apostas online injetou um fôlego inesperado no varejo alimentar. Desde o fim de setembro, as vendas de itens básicos como arroz, óleo, macarrão e café subiram 6,5% em todo o país na comparação anual. O que explica essa virada de chave no bolso das famílias?
O choque imediato no Pix e no carrinho de compras
Em 25 de setembro, a Medida Provisória 1.394/2026 tornou ilegal o funcionamento de casas de apostas esportivas e jogos de quota fixa. O efeito no sistema financeiro foi instantâneo: transações via Pix caíram 10% nos primeiros dias, estabilizando depois em queda de 7%.
Para João Galassi, presidente da Abras, parte desse recurso migrou direto para o supermercado. “As pessoas estão comprando mais produtos”, resume. Ainda não há prova cabal de causalidade, mas a correlação temporal é forte e coincide com a visão de que o varejo de alimentos vende qualidade de vida, enquanto as bets vendiam, nas palavras do vice-presidente Marcio Milan, “uma doença social”.
Mapa regional: onde o efeito foi mais forte
O avanço não foi uniforme. O Sul e o bloco Sudeste (Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio) lideraram com alta de 10,6%. Veja o recorte por região:
- Sul + Sudeste (parcial): +10,6%
- Nordeste: +6,5%
- Interior de São Paulo: +5,6%
- Região Metropolitana do Rio: +4,0%
- Centro-Oeste: +3,6%
- Grande São Paulo: +1,2% (menor variação)
Os números foram apresentados durante a feira Supervendas, em Aracaju, e referem-se às semanas de 5 a 11 de outubro (+6,5%) e 12 a 17 de outubro (+6,3%), sempre frente a 2025.
O contra-argumento do setor de apostas
Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) e Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) contestam a leitura direta. Segundo as entidades, o varejo alimentar já crescia antes da MP: 7,9% na quinzena de 14 a 20 de setembro e 7,4% na de 5 a 11 de outubro, na base anual.
Elas listam três vetores alternativos que explicariam a alta:
- Melhora do emprego e da renda real;
- Queda nos preços dos alimentos (IPCA-15 de outubro mostrou recuo de 0,02% no grupo);
- Reajuste de 15% no Bolsa Família, ampliando o poder de compra das famílias mais vulneráveis.
O IPCA-15 geral desacelerou de 0,48% para 0,18% entre setembro e outubro, com deflação também em artigos de residência (-0,64%) e comunicação (-0,09%).
O que observar daqui para frente
A MP ainda tramita no Congresso e enfrenta resistência de bancadas ligadas a clubes de futebol e a operadores do setor. Se for derrubada ou alterada, o fluxo de caixa das famílias pode voltar a migrar para as plataformas de apostas.
Para o empresário do varejo, o sinal prático é monitorar dois indicadores nas próximas semanas: a trajetória do volume de Pix (proxy de renda disponível) e a inflação de alimentos no atacado. Se a deflação no varejo se sustentar e o emprego continuar aquecido, o crescimento de vendas tende a se manter independentemente do destino final da MP. Já uma reversão na regra das bets testará, na prática, qual dos dois vetores — renda extra ou substituição de gasto — pesa mais na cesta básica do brasileiro.
