A busca por contas globais explodiu depois das eleições: a Avenue registrou o recorde de aberturas em um único dia em 26 de outubro, com cadastros 60% acima da média nos dias seguintes e captação líquida três a quatro vezes maior. O movimento não é pontual — virou tendência estrutural.
No primeiro turno, o salto foi ainda mais brutal: 130% mais aberturas que a média diária e entrada de recursos 8,2 vezes superior a um dia normal. O recado está dado: o investidor brasileiro descobriu que diversificar geograficamente deixou de ser luxo de private banking.
O fim da barreira de entrada
Até pouco tempo, aplicar no exterior exigia estrutura de private banking, valores mínimos altos e burocracia. Hoje, plataformas digitais como Nomad, Revolut, C6, Inter, XP, BTG e os grandes bancos tradicionais oferecem contas globais com onboarding 100% digital e aportes iniciais acessíveis.
Os números não mentem. A Nomad saltou de 500 mil clientes no fim de 2022 para 3,8 milhões em 2025, com ativos sob custódia acima de R$ 8 bilhões. A base de clientes da Revolut no Brasil triplicou em 12 meses, no mesmo ritmo do volume em moeda estrangeira. O C6 viu contas globais crescerem 44% e saldo subir 32% entre agosto de 2024 e agosto de 2026.
Perfil do investidor: do conservador ao agressivo
Carlos Ambrósio, sócio da Avenue, resume a mudança: “Antes a demanda estava concentrada em grandes investidores. Hoje inclui desde quem quer proteção patrimonial até quem busca ativos inexistentes no Brasil”.
Bruno Guarnieri, da Nomad, confirma: a base é formada majoritariamente por quem ganha a partir de R$ 15 mil mensais. O perfil conservador ainda predomina, mas a fatia disposta a assumir mais risco cresce rápido. Na XP, a recomendação oficial passou a ser: mínimo de 15% do patrimônio financeiro no exterior — inclusive para conservadores.
Para onde vai o dinheiro
- Consumo e pagamentos: 60% dos saldos em moeda estrangeira na Revolut
- Reservas e investimentos: 40% na Revolut; 80% dos clientes do Bradesco Bank direcionam para aplicações
- Classes de ativos: ações, ETFs, renda fixa internacional, fundos temáticos
A grande novidade não é o interesse — que já vinha subindo —, mas a recorrência. Ambrósio destaca: os aportes deixaram de ser reativos a picos do dólar e viraram rotina, independentes da cotação do dia.
O efeito tributário que ninguém comenta
A Lei nº 14.754, de 2023, simplificou tudo: alíquota única de 15% sobre rendimentos de aplicações no exterior, apurada na declaração anual de IR. Bruno Peixoto, da BPTax, avalia que a regra removeu o principal entrave psicológico e operacional para o pequeno e médio investidor.
Não por acaso, o Banco Central registrou 32,4 mil declarantes de ativos no exterior em 2025 — o maior número desde 2020. São 28,3 mil pessoas físicas, pico desde 2019. (Atenção: a regra de declaração mudou em 2020, de US$ 100 mil para US$ 1 milhão, o que dificulta comparações históricas diretas.)
O que os grandes players estão vendo
Santander: +123% em aberturas de contas globais e +48% em volume de investimentos no ano. Bradesco: volume em dólares multiplicou por sete e base de contas por 15. XP: base com exposição internacional cresceu 10 vezes desde 2022, custódia subiu 5 vezes, mais de 2 milhões de operações de câmbio e investimento nos últimos meses.
Diego Correia, líder de internacionais da XP, coloca em perspectiva: “O Brasil representa cerca de 2% do PIB global e menos de 1% do valor de mercado das bolsas mundiais. Ficar só aqui é concentrar risco em uma fração minúscula do tabuleiro”.
O que observar daqui pra frente
A internacionalização do patrimônio brasileiro deixou de ser movimento de elite e virou opção de varejo. Três variáveis ditam o ritmo nos próximos trimestres: a continuidade da volatilidade fiscal local, a manutenção da regra tributária simplificada e a expansão da oferta de produtos (renda fixa global, private equity acessível, fundos de infraestrutura).
Para quem ainda está na margem, o sinal prático é claro: abrir a conta global hoje custa zero e não obriga a aportar. Ter a estrutura pronta permite agir no dia em que a estratégia de alocação pedir exposição lá fora — sem correr atrás de burocracia na hora do aperto.
