O presidente Lula perdeu o sono com o risco de repetir o colapso de popularidade que derrubou Dilma Rousseff em 2015. A turbulência recente nos mercados disparou um alerta vermelho no Planalto: a combinação de dólar alto, juros longos estressados e projeções de PIB em queda livre reacende o trauma do “estelionato eleitoral” que o petista jurou nunca cometer.
Segundo interlocutores diretos, a reação do chefe do Executivo oscila entre a fúria e o temor genuíno. Ele rejeita a pecha de “refém do mercado” e aponta o próprio histórico — melhores resultados fiscais desde Fernando Henrique Cardoso — como prova de que não precisa de lições de ajuste. Mas os números atuais contam outra história.
O retrato do colapso que assombra o Planalto
A memória de 2015 é vívida nos corredores do poder. Em outubro de 2014, Dilma tinha 42% de “ótimo/bom” no Datafolha; cinco meses depois, o índice desabou para 13%, enquanto a rejeição saltou de 20% para 62%. A economia ruiu no segundo trimestre de 2014; no primeiro de 2015, era colapso total, com o emprego caindo a partir de junho.
Lula vê paralelos perigosos. As expectativas de inflação para 2027 sobem puxadas pelo câmbio, enquanto o PIB projetado para o próximo ano despenca para a faixa de 0,5% a 1,3% — bem longe da média de 3% observada entre 2023 e 2025. O risco de um dólar a R$ 6 ou um IPCA beirando 6% é o gatilho que pode forçar a mão do governo.
A trincheira ideológica: ajuste versus “desenvolvimentismo”
O presidente traçou uma linha vermelha: não aceita conter o crescimento do salário mínimo, de benefícios sociais ou de programas voltados aos mais pobres. A ordem é “não trair o eleitorado”. Em contrapartida, Lula quer medidas “transformadoras” para garantir que um eventual “Lula 4” seja distinto do mandato atual.
- Time da esquerda: Guido Mantega e economistas petistas defendem ação direta para derrubar juros, via expansão fiscal controlada.
- Time do mercado: Banqueiros e economistas liberais pressionam ministros por um ajuste ortodoxo imediato.
- O fiel da balança: Bruno Moretti, ministro do Planejamento, ganha ouvido do presidente. Desenvolvimentista de carreira petista, ele comanda a estratégia de cumprir a meta de superávit do arcabouço com mais liberdade para bloquear rubricas hoje blindadas por lei.
O que está na mesa (e o que é intocável)
O pacote provável para os próximos meses é cirúrgico: foco em aumento de receita via redução de isenções fiscais e gestão estrita do arcabouço, com poder de veto sobre gastos obrigatórios. Por outro lado, Lula trava politicamente diante de sugestões para mexer na Previdência dos militares ou em “penduricalhos” do funcionalismo — temas vistos como suicídio eleitoral.
Na Fazenda, os balões de ensaio — Rafael Fonteles e Geraldo Alckmin — servem mais para medir reações do que para definir o futuro. A regra interna é clara: o nome importa menos do que o mandato de mudança que ele receber. A disputa real pelas pastas da Fazenda, Casa Civil e Segurança Pública já é, na prática, a antecipação da sucessão de 2026.
O termômetro do Banco Central e a incógnita do Congresso
A decisão da Selic na próxima reunião é incerta. Os juros de longo prazo já superam o pânico de janeiro de 2025, sinalizando que o mercado precifica um cenário de descontrole fiscal prolongado. Se o Copom não cortar, a pressão sobre Lula para um gesto fiscal contundente explode.
Mas o entrave maior não é técnico, é político. A relação com o Congresso para um quarto mandato projetado é descrita como “ainda mais complexa” do a atual. A base é volátil, o Centrão cobra a fatura e a oposição articula pautas-bomba.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o ritmo dos próximos trimestres: a trajetória do dólar frente à meta de inflação, a disposição do Banco Central em sinalizar corte de juros e a capacidade de Moretti de entregar superávit primário sem detonar a base social do governo. Se o PIB de 2026 confirmar a projeção de 1,8% e o mercado não acreditar no ajuste de receitas, a janela para evitar o “fantasma de 2015” se fecha rápido. O empresário e o investidor devem monitorar a execução orçamentária mensal e a tramitação das medidas de compensação fiscal: são elas que dirão se o plano B existe ou se a aposta é apenas no ciclo virtuoso externo.
