O Supremo Tribunal Federal (STF) realiza na terça-feira (3) uma audiência pública decisiva sobre a medida provisória que proibiu as apostas online, mas a lista de convidados expõe um desequilíbrio gritante: das 28 entidades ouvidas, nenhuma representa saúde pública, defesa do consumidor ou proteção à infância. Quem vai falar por quem perdeu?
A composição que privilegia a receita
Foram chamados dez clubes de futebol, duas entidades esportivas, cinco associações do setor de apostas e quatro grupos empresariais e de radiodifusão que veiculavam a publicidade das bets. Em comum, todos lucravam diretamente com a operação das plataformas. A Advocacia-Geral da União (AGU) chegou a pedir a inclusão de órgãos como Idec, Dieese e CNBB, mas a lista só foi ampliada uma vez para adicionar o Comitê Olímpico e o Ministério do Esporte.
O que a pesquisa “Mulheres & Bets” trouxe à tona
Enquanto o debate público girava em torno de arrecadação e patrocínios, o estúdio CLARICE, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, ouviu mais de 2 mil mulheres das classes C, D e E em julho de 2025. O retrato que emerge quebra a narrativa do “entretenimento”:
- 4 em cada 10 brasileiras já apostaram;
- A maioria joga para completar a renda (conta de luz, material escolar, alimentação);
- Quando perdem, o buraco abre dentro de casa: “Às vezes não tem um grão de comida”, relatou uma entrevistada de 24 anos na Bahia.
O efeito cascata em quem não joga
O dano não se restringe à apostadora. Entre mulheres que convivem com alguém que aposta, 14% deixaram de pagar contas, uma em cada quatro relata brigas e perda de confiança e 23% dos brasileiros conhecem ou presenciaram situações em que a aposta alimentou violência familiar. O silêncio pesa: 65% das que quiseram parar e não buscaram ajuda citaram a vergonha como barreira.
Opinião pública vira a chave
Os dados mudaram a percepção social. Em julho, 62% das mulheres apoiavam a proibição (contra 50% dos homens). Em outubro, com a MP em vigor, o Datafolha registrou 78% de apoio total no país — alta de 13 pontos percentuais desde novembro de 2024. A pauta saiu da economia e entrou na saúde mental e na proteção familiar.
A matemática que não fecha para os clubes
O argumento financeiro do futebol é real, mas desproporcional. Em 2025, os clubes da Série A receberam cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios (7% de suas receitas). No mesmo período, os apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O que entrou nos cofres dos times equivale a menos de 3% do que saiu do bolso das famílias.
Arrecadação vs. custo real para a saúde
Sobre os impostos: o setor recolheu R$ 6,8 bilhões (fevereiro a setembro de 2025). A lei destina 1% da parcela pública ao Ministério da Saúde; até agosto, chegaram R$ 33 milhões. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima, porém, que os custos anuais de saúde associados ao jogo superam R$ 30,6 bilhões. A conta é paga pelo SUS e pelas famílias.
O que observar daqui para frente
A medida provisória segue agora para o Congresso Nacional, onde o debate deve ocorrer com tempo e dados completos. Até lá, a proibição precisa ser mantida; suspendê-la antes de ouvir as vítimas seria decidir primeiro e escutar depois. O sinal de alerta para empresários e investidores é claro: a regulação do setor — se houver — passará obrigatoriamente por mecanismos efetivos de proteção ao consumidor e destinação real de recursos para mitigação de danos sociais, sob pena de instabilidade jurídica e rejeição popular crescente.
