Justiça

O movimento de ACM Neto que pode travar a oposição na Bahia até 2030

ACM Neto em evento político na Bahia com símbolos do PL e bandeiras do Brasil
Ex-prefeito de Salvador apoia Flávio Bolsonaro em 2026, mas ganho eleitoral foi mínimo no estado.

ACM Neto decidiu apoiar Flávio Bolsonaro no segundo turno de 2026 e o retorno foi quase nulo: o candidato do PL avançou apenas 0,16 ponto percentual em todo o estado. A consequência imediata, porém, pode custar caro nas urnas municipais de 2028 e na disputa pelo governo em 2030.

Especialistas ouvidos pelo g1 apontam que o gesto consolidou a imagem de “antilulista” que o ex-prefeito de Salvador vinha tentando evitar. Em um estado onde Lula saltou de 66% para 71% dos votos válidos entre um turno e outro, o cálculo político parece ter falhado.

O que os números revelam sobre a aposta

Flávio Bolsonaro conquistou 166.176 votos extras no segundo turno, passando de 2.442.585 para 2.608.761. Em percentual: 28,53% para 28,69%. Lula, no mesmo intervalo, adicionou 820.487 votos e chegou a 71,31%.

O senador só venceu o petista em quatro dos 417 municípios baianos: Buerarema, Itamaraju, Teixeira de Freitas e Luís Eduardo Magalhães. Em nenhuma delas a virada foi expressiva.

  • Buerarema: 51,69% → 52,26%
  • Itamaraju: 51,67% → 51,56% (queda)
  • Teixeira de Freitas: 49,51% → 50,06%
  • Luís Eduardo Magalhães: 62,03% → 61,6% (queda)

O apoio de Neto não moveu o ponteiro. Pior: reforçou a identificação do grupo com a rejeição a Lula, algo que cientistas políticos consideram difícil de reverter até a próxima eleição presidencial.

O custo diferente entre capital e interior

Para Ariel Calmon, coordenador de Análise Política Subnacional da BMJ, o prejuízo é assimétrico. Em Salvador e região metropolitana, onde a base de Neto já é oposicionista, o impacto tende a ser menor. Já no interior — onde ele precisa crescer —, a conta é mais alta.

“A reputação de um político se forma com sinais acumulados, e esse é um sinal forte, difícil de apagar até 2030”, resume Calmon. O cientista político vê risco real de o caminho para uma nova disputa estadual ficar “mais estreito”.

Cláudio André Souza, professor da Unilab, vai além: a decisão pode ter sido uma aposta de sobrevivência para 2027, caso Flávio vencesse. Neto buscaria espaço no governo federal, mas teria de disputar protagonismo no Nordeste com João Roma (PL), ex-ministro da Cidadania e nome já consolidado na direita baiana.

Duas derrotas seguidas e o encolhimento territorial

O cenário já era adverso antes do segundo turno. Em 2022, Neto perdeu para Jerônimo Rodrigues (PT) no segundo turno. Em 2026, o governador petista liquidou a fatura no primeiro turno: 55,80% contra 43,72%. A diferença superou um milhão de votos — em 2022, haviam sido 700 mil no primeiro turno e 480 mil no segundo.

Outro termômetro: dos 27 territórios de identidade do estado, Neto liderava em cinco na eleição passada. Desta vez, manteve apenas três. A perda mais sensível ocorreu no sertão.

Calmon explica: com Lula na urna e muito bem votado, a disputa estadual virou plebiscito. “Quem não está do lado de Lula perde terreno justamente nos municípios onde o lulismo é mais forte.”

Por que o interior não vota na oposição

O eleitor do interior avalia o governo de forma retrospectiva, diz Calmon. Olha o que chegou à cidade: estrada, cisterna, luz, saneamento, escola em tempo integral. Isso cria “memória de gratidão” com o grupo que governa há 20 anos.

Mesmo conservador nos costumes, esse eleitor não converte o conservadorismo em voto de oposição. “Pesa mais a vontade de manter o que deu certo”, afirma o especialista.

Nas cidades maiores, a exposição ao debate e à mídia faz o voto de oposição encontrar espaço. Em Salvador, pesa a gestão de Neto na prefeitura — imagem de gestor que não chegou ao interior, onde ele segue visto como “alguém da capital, associado ao carlismo”.

Erros de campanha e a máquina do outro lado

A aproximação com o interior veio só durante a campanha. “O eleitor do interior sabe distinguir quem aparece na eleição de quem está presente ao longo dos anos”, cutuca Calmon.

Além disso, a campanha ficou concentrada em Neto e num núcleo restrito do União Brasil, com pouco espaço para aliados. Do lado petista, a fórmula foi diferente: campanha propositiva, mobilização orgânica de servidores e movimentos, prefeituras espalhadas pelo estado e a foto com Lula em todo material.

O que observar daqui para frente

O teste imediato são as eleições municipais de 2028, principalmente em Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Camaçari e Lauro de Freitas. A capacidade de segurar prefeitos aliados — que costumam migrar para o lado do governo por obras e recursos — será decisiva.

Para 2030, a ausência de Lula e de Jerônimo (que não pode concorrer à reeleição) abre janela. Mas Calmon avisa: “O caminho com mais chance passa por construir uma centro-direita baiana com identidade própria, que fale de gestão e problemas do estado sem depender de quem ocupa a polarização nacional. Isso exige tempo, novos nomes e presença contínua no interior.”

Enquanto isso, Neto divulgou vídeo nas redes reforçando o papel de oposição: “Quem ganhou deve governar, quem não ganhou deve fazer oposição. Estamos preparados para fazer um trabalho com sinceridade, mostrando os problemas da Bahia e do Brasil.”