Economia

Keeta faz 1 ano no Brasil: R$ 1 bi queimado, expansão travada e a aposta no interior

Entregador Keeta em motocicleta verde nas ruas de São Paulo, expansão limitada no Brasil
Keeta completa 1 ano no Brasil operando em apenas 11 cidades paulistas, longe das 16 regiões prometidas.

A Keeta completou seu primeiro ano no Brasil com um mapa de operação drasticamente menor que o prometido. Em vez das 16 regiões metropolitanas planejadas, a controlada da chinesa Meituan atua apenas em 11 cidades paulistas — sendo a capital a única sede de governo atendida até agora.

O que explica o freio de arrumação? A resposta passa por contratos de exclusividade, uma guerra judicial e uma estratégia que agora mira o interior do país. O desfecho dessa história pode redesenhar o delivery brasileiro nos próximos dois anos.

O tamanho do buraco no caixa e a barreira invisível

Os números revelam a dimensão do desafio. A empresa confirmou ter queimado R$ 1 bilhão apenas para se manter nas praças atuais. Dos R$ 5,6 bilhões prometidos para cinco anos, menos de 20% saíram do papel. A folha de pagamento chega a cerca de mil funcionários.

O obstáculo central não é capital, mas acesso. Segundo a Keeta, mais de 50% das redes com cinco ou mais lojas estão bloqueadas por cláusulas de exclusividade ou “banimento” — contratos que impedem o restaurante de operar em plataformas rivais. Em levantamento de setembro, o índice subia para 85,7% entre 147 redes “âncora” em São Paulo e Baixada Santista.

O que o iFood diz e o que o Cade já decidiu

O líder de mercado contesta a narrativa. O iFood afirma que seus contratos respeitam o acordo firmado com o Cade em 2023: nada de exclusividade com redes acima de 30 lojas e teto de 8% da base exclusiva em cidades acima de 500 mil habitantes. Em agosto, a empresa denunciou a Keeta ao órgão por preço predatório — venda abaixo do custo para expulsar concorrentes.

Enquanto o processo administrativo corre, a Keeta colecionou uma vitória judicial relevante. Em setembro, o TJSP anulou cláusulas da 99Food que vedavam parceria com a rival e aplicou multa de R$ 100 mil por contrato descumprido. A decisão, porém, tem alcance restrito, segundo o advogado Pedro Abrão Júnior: atinge apenas cláusulas de exclusão nominal, não proíbe contratos de exclusividade de forma geral.

Crescimento no papel vs. retenção real

Os indicadores operacionais mostram expansão expressiva na base cadastrada:

  • Restaurantes: 83 mil (eram 27 mil no lançamento na capital)
  • Entregadores registrados: 430 mil (eram 98,2 mil)
  • Downloads do app: 10 milhões
  • Tempo médio de entrega: 28 minutos em raio de 3 km

A empresa não divulga pedidos, usuários ativos nem market share. Na ação judicial, a 99Food estimou participação superior a 11% em São Paulo. Especialistas alertam: downloads mostram curiosidade, não fidelidade. O teste real vem quando os cupons acabam.

O experimento arriscado da “compra intermediada”

Para furar o bloqueio de restaurantes, a Keeta passou a listar estabelecimentos não parceiros, receber o pedido e enviar um comprador ao balcão — a chamada compra intermediada. A ANR (Associação Nacional de Restaurantes) moveu ação civil pública pedindo a suspensão do modelo. Redes como Greenjoy e Pizza Hut já acionaram a empresa judicialmente pelo uso não autorizado de suas marcas.

A Keeta defende a prática como piloto para ampliar acesso em mercado “bloqueado”, com identificação clara via etiqueta “intermediada”. Para o advogado Pedro Abrão Júnior, a jogada contorna uma barreira real, mas cria risco jurídico e reputacional próprio. Comercialmente, segundo Athos Vilarins, CEO da Assessoria Alpha, é arriscado: nenhuma plataforma cresce em conflito com quem fornece o produto.

A virada para o interior e o relógio de 2027

Após a vitória no TJSP, a Keeta anunciou expansão para 21 cidades do interior paulista até o fim do ano. A lógica: cidades com viabilidade operacional, menor densidade de exclusividades e disciplina de capital — a Meituan sinalizou contenção de custos após prejuízo bilionário na China em 2025.

O risco logístico existe. Em áreas mais dispersas, entregas ficam longas e caras. Vilarins propõe três métricas de sucesso: pedidos recorrentes por cliente, custo por entrega e restaurantes efetivamente ativos — não quantidade de cidades no mapa.

O marco definitivo chega em agosto de 2027, quando vence o acordo do iFood com o Cade limitando exclusividades. Se a Keeta validar o modelo no interior até lá, volta às capitais com estrutura testada. Se não, terá apenas espalhado prejuízo.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão o próximo capítulo: a tramitação da denúncia por preço predatório no Cade, a resolução das ações sobre compra intermediada e a capacidade da Keeta de converter downloads em recorrência orgânica. O dinheiro da controladora existe — a Meituan faturou US$ 52,8 bi globalmente em 2025. A questão é se a paciência do investidor chinês acompanha o ritmo das barreiras brasileiras.