Cultura

O segredo da virada: duas imagens, o medo e 10 milhões de votos…

Homem negro fantasiado de diabo vermelho acorrentado por homem branco na Barra da Tijuca
Encenação brutal na Barra da Tijuca expõe hierarquia racial na campanha de 2022.

A última eleição presidencial não foi decidida apenas nas urnas, mas no confronto entre duas narrativas visuais opostas. Uma expôs o ranço de uma hierarquia racial secular; a outra revelou a emergência de um sujeito coletivo capaz de inverter a história em semanas. O que fez a balança pender no segundo turno?

A síntese do brutalismo na Barra da Tijuca

A cena chocou pela crueza deliberada: um homem negro, fantasiado de diabo em tons vermelhos, acorrentado por um homem branco que gritava contra “satanás” e o PT. Não era apenas encenação de ódio; era a materialização do que analistas chamam de “fascismo da cor”.

A imagem condensou três camadas históricas em um único quadro: a memória do poder escravista, a persistência de uma hierarquização racial que aluga corpos negros para performances degradantes e a naturalização da violência simbólica como ferramenta política. O choque não estava no grotesco, mas na clareza com que o passado escravista foi arrastado para o palanque eleitoral de 2022.

A potência da multidão na Avenida Paulista

Do outro lado, 14 quarteirões tomados por bandeiras vermelhas. Diferente da encenação carioca, ali não havia atores coadjuvantes: a multidão era o protagonista. A diversidade etária, a gestualidade livre e a alegria estampada nos rostos compuseram o que Jacques Rancière define como a esfera de aparecimento do “povo” — um sujeito politicamente ativo precisamente porque é internamente dividido.

  • Escala: Maior manifestação urbana mensurada em quarteirões na campanha.
  • Composição: Jovens, idosos, famílias — heterogeneidade real, não curada para redes sociais.
  • Sinal: Ruptura da paralisia que marcava o primeiro turno.

Na prática, a avenida funcionou como um laboratório de subjetividade histórica: o “povo” não existia antes; ele se produziu ocupando o espaço público e as redes simultaneamente.

Por que a massa só acordou no segundo turno?

No primeiro turno, o discurso progressista patinava no cansaço de palavras gastas. Conceitos abstratos como “luta antifascista” ou “defesa da democracia” haviam perdido capacidade de mobilização — viraram ruído de fundo. A virada ocorreu quando a ameaça deixou de ser tese acadêmica e virou imagem viva.

A presença concreta do perigo, corporificada na cena da Barra e amplificada pelo aparato miliciano, transformou o medo em combustível político. Foi a lucidez plural diante do risco imediato que converteu uma massa amorfa em “povo” agente. O resultado numérico é eloquente: cerca de 10 milhões de “soldados” digitais e presenciais do “exército do Lula” corresponderam, quase matematicamente, à diferença final de votos.

O que gestores e investidores devem monitorar daqui pra frente

A lição transcende a análise eleitoral. Em cenários de alta polarização, símbolos operam como ativos de liquidez imediata: eles condensam medos, aspirações e identidades mais rápido que qualquer programa de governo ou relatório econômico.

Três variáveis merecem vigilância contínua:

  1. Velocidade de formação de sujeitos coletivos: A paralisia pode se romper em dias quando a ameaça se torna tangível.
  2. Capacidade de síntese visual: Quem controla a imagem-síntese do momento controla a pauta — nas ruas e nos algoritmos.
  3. O fator medo como alavanca: O temor concreto move eleitorados que a razão abstrata não alcança.

Para quem toma decisão de risco — seja alocação de capital, estratégia de comunicação ou planejamento de cenários —, ignorar a dinâmica das “imagens que viram história” é subestimar a variável mais volátil do Brasil atual: a capacidade do coletivo de se reinventar diante do abismo.