O dólar fechou a sexta-feira (30) a R$ 5,447, maior nível do ano, acumulando alta de 9,2% na semana pós-eleições. O movimento forçou economistas a revisarem para cima as projeções do IPCA para 2026 e 2027, justo quando os alimentos já pressionam o índice por conta do El Niño.
A combinação cambial e climática cria um cenário de risco duplo para o orçamento das famílias e para a meta do Banco Central. Entenda por que os próximos meses podem ser decisivos.
O choque cambial e o medo do fiscal
A disparada da moeda americana reflete a desconfiança do mercado em relação ao compromisso do novo governo com o ajuste das contas públicas. Sem sinalizações claras de contenção de despesas, a tendência é que o câmbio permaneça pressionado.
Para Fábio Romão, da 4intelligence, a revisão da curva de câmbio foi o gatilho principal para elevar a estimativa do IPCA de 2026 de 5,18% para 5,31% e a de 2027 de 4,23% para 5%. “Quase tudo responde ao câmbio, mas combustíveis, alimentos e bens duráveis são os candidatos principais”, resume.
El Niño já bate na porta do supermercado
Enquanto o dólar sobe, o clima colabora para a alta dos preços. O IPCA-15 de outubro mostrou a alimentação no domicílio subindo 1,01%, maior variação para o mês em cinco anos.
Os vilões são conhecidos de quem foi à feira recentemente:
- Tomate: +24,54%
- Cebola: +13,63%
- Batata-inglesa: +10,96%
- Arroz: +5,80%
Sergio Vale, da MB Associados, atribui parte expressiva desse movimento aos efeitos iniciais do El Niño, que altera regimes de chuva e temperatura no campo. Ele projeta IPCA a 5,2% em 2026 e 4,5% em 2027 — ambos acima do teto da meta (4,5%).
Pressão extra: estímulos, trabalho e tributos
Não é só o câmbio e o clima. Medidas de estímulo às vésperas da eleição, como o reajuste do Bolsa Família pago dias antes do segundo turno, injetam demanda na economia justamente quando a oferta está restrita.
Rafael Cardoso, do Daycoval, aponta que a projeção de 5% para 2026 pode subir ainda mais. A equação inclui a intensidade do El Niño, a pressão cambial, o fim da escala 6×1, a implementação da reforma tributária e o comportamento do petróleo.
O dilema do Banco Central
A meta de inflação tem centro em 3% e tolerância até 4,5%. Com o consenso de mercado (Focus) prevendo 5,19% para 2026 e 4,34% para 2027 — dados coletados antes da alta do dólar —, o BC fica encurralado.
Solange Srour, do UBS GWM, é direta: sem ajuste fiscal crível, o dólar não cede e a inflação se torna mais difícil de controlar. Nesse cenário, não está descartada a volta da alta da Selic em 2027. Hoje, o boletim Focus aposta em queda dos juros para 11,75% no ano que vem, mas esse cenário pressupõe um fiscal comportado.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o ritmo dos preços nos próximos trimestres: a velocidade e a credibilidade do pacote fiscal prometido pelo governo, a evolução do El Niño nas lavouras do Centro-Sul e a disposição do Banco Central em segurar juros altos por mais tempo se as expectativas desancorarem.
Para o empresário e o investidor, o recado é claro: planejar 2026 com inflação na casa de 5% e juros reais elevados não é pessimismo, é precaução baseada nos dados atuais.
