Líderes da Câmara articulam uma PEC para trocar o sistema proporcional pelo distrital misto, mas a regra definitiva só valerá daqui a uma década. A manobra nasceu do susto com o crescimento do PL, que saltou para 121 cadeiras e 23,6% da Casa. O que muda, na prática, para quem vota e para quem financia campanhas?
A resposta curta: o “puxador de votos” deixa de existir. A resposta longa exige entender uma transição confusa que começa em 2030 e só consolida o novo mapa em 2034.
O gatilho: Centrão encolhe, PL explode
Nas últimas urnas, o Partido Liberal elegeu a maior bancada desde a Constituinte: 121 deputados. Quatro anos antes eram 99. Enquanto isso, o bloco de centro perdeu 22 assentos de uma só vez. A leitura nos gabinetes é unânime: sem mudança nas regras, a tendência é de hegemonia bolsonarista na Câmara.
Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Casa, colocou a PEC na mesa ainda em outubro. O relator será Domingos Neto (PSD-CE). A pressa é tanta que a ideia é aprovar o texto ainda em 2026, mas o calendário real depende de acordos que ainda não existem.
Como funciona o modelo “misto” que querem aprovar
Hoje, o voto é no partido ou no candidato; o quociente eleitoral distribui as sobras. No distrital misto, o estado é fatiado em distritos. Metade das vagas vai para os mais votados na região; a outra metade segue lista fechada definida pela sigla, proporcional aos votos totais da legenda.
- Exemplo prático: Se o partido tem votos para quatro cadeiras no distrito, entram os quatro primeiros nomes da lista partidária.
- Fim do “puxador”: Votações estratosféricas como as de Nikolas Ferreira (PL-MG) ou Erika Hilton (PSOL-SP) não carregam mais ninguém.
- Campanha mais barata: Candidato gasta só no seu distrito, não no estado inteiro.
O campo minado das resistências
O PL não quer mudar time que está ganhando. O PT teme dar munição ao discurso de “cerceamento” da oposição. O PSOL e a bancada negra alertam: listas fechadas nas mãos de caciques reduzem mulheres e negros no plenário. Adriana Ventura (Novo-SP) vai além: distritos pequenos viram alvo fácil de crime organizado e milícias.
Há ainda a turma do “distritão” — majoritária pura, os mais votados levam. Tentaram em 2017 e 2021, falharam. Luizinho (PP-RJ) defende, mas propõe mandato pertencente ao partido para evitar debandadas.
A transição nebulosa: 2030 e 2034
Para ganhar votos, líderes prometem que 2026 fica como está. Em 2030, teste de “distritão” para agradar a ala majoritária. Só em 2034 entra o distrital misto com lista fechada. Domingos Neto garante que cotas de gênero e raça valerão para a ordem da lista, mas não explica como fiscalizar se o partido coloca mulheres e negros no fim da fila.
A divisão dos distritos será técnica, segundo o IBGE, com comissão mista acompanhando. Deputados temem perder votos espalhados por cidades que cairão em distritos diferentes. O argumento a favor: proximidade real entre eleito e eleitor.
O que observar daqui para frente
Três variáveis decidem se a reforma sai do papel: o Senado (Davi Alcolumbre já sinaliza abertura, pois senadores não são afetados), a costura com PT e PL — hoje opostos — e a definição clara das cotas nas listas partidárias. Se a regra da diversidade for frouxa, o Congresso de 2034 será mais local, mais barato para campanhas, mas potencialmente menos representativo. Acompanhe a tramitação da PEC nas comissões: é ali que o desenho dos distritos e a rigidez das listas serão escritos.
