Economia

IPOs voltam em 2027? Bancos já preparam o terreno após susto inicial

Gráfico de tendência de IPOs na B3 com projeção de alta para 2027
Bancos projetam retomada dos IPOs na B3 para 2027 após alinhamento de fundamentos.

Grandes bancos de investimento já trabalham com a volta das ofertas iniciais de ações (IPOs) na B3 para 2027, mesmo após a reação negativa do mercado à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A expectativa contrasta com o pessimismo que dominou os pregões logo após o resultado das urnas.

O que explica essa virada de chave? A resposta está menos na política e mais nos fundamentos que começam a se alinhar nos bastidores.

O choque inicial e a leitura dos profissionais

Nos dias seguintes à eleição, o Ibovespa recuou forte e o dólar disparou. O temor era de expansão fiscal descontrolada e interferência em estatais. Mas, passadas as primeiras semanas, a leitura das mesas de operação mudou.

Gestores e banqueiros ouvidos sob reserva apontam que o arcabouço fiscal, ainda que imperfeito, tirou o risco de dominância fiscal do radar imediato. Com isso, a curva de juros longos voltou a fechar, abrindo janela para precificação de ativos de risco.

Por que 2027 e não antes?

A resposta curta: tempo. Empresas que querem abrir capital precisam de pelo menos dois anos de demonstrações financeiras auditadas, governança ajustada e roadshow preparado. Quem começa agora, mira o primeiro semestre de 2027.

Além disso, o ciclo de queda da Selic — projetado para começar ainda em 2025 — precisa ganhar tração. Juros reais mais baixos reduzem o custo de capital e tornam o valuation de crescimento atrativo novamente.

Setores na fila de espera

Não será uma enxurrada generalizada. Os bancos mapeam três frentes prioritárias:

  • Tecnologia e software B2B: empresas com receita recorrente em dólar e baixa necessidade de capital intensivo.
  • Energia renovável: geradoras eólicas e solares com contratos de longo prazo já assinados.
  • Saúde e educação: consolidadores regionais que usam IPO para financiar aquisições.

Setores cíclicos como varejo e construção civil devem ficar para uma segunda onda, mais dependente da recuperação do consumo.

O que ainda pode travar o processo

Dois riscos não precificados preocupam os estruturadores de ofertas. O primeiro é a tramitação da reforma tributária no Senado — qualquer alteração relevante no IVA dual muda projeções de fluxo de caixa.

O segundo é o cenário externo. Se o Federal Reserve mantiver juros altos por mais tempo por causa da inflação americana, o custo de oportunidade do capital global sobe e fecha a janela para emergentes.

O sinal verde que o mercado espera

Segundo fontes ligadas a coordenadores de ofertas, o gatilho definitivo será a primeira emissão bem-sucedida de uma empresa “não-estatal” com valuation acima de R$ 5 bilhões. Isso mostraria apetite real de investidor local e estrangeiro.

Até lá, as boutiques de M&A e os departamentos de relações com investidores das candidatas seguem afinando o discurso: governança, ESG mensurável e uso claro dos recursos captados.

O que observar nos próximos trimestres

Três indicadores anteciparão se a previsão se confirma: volume de pedidos de registro na CVM (mesmo os confidenciais), ritmo de contratação de assessores financeiros pelas empresas-alvo e, principalmente, a taxa de sucesso dos follow-ons atuais. Se as ofertas subsequentes forem bem absorvidas, o pipeline de IPOs destrava naturalmente.

Para o investidor, a lição prática: comece a mapear agora as empresas que estão se preparando. Quem entra no radar antes do roadshow costuma capturar o prêmio de liquidez inicial.