Economia

O fim das bets fez o brasileiro voltar ao supermercado? Os números surpreendem

Brasileiro fazendo compras em supermercado com carrinho cheio, representando alta nas vendas após bloqueio das bets
Imagem ilustra o possível redirecionamento do dinheiro das apostas para o varejo alimentar brasileiro.

O bloqueio das plataformas de apostas online, oficializado em 25 de setembro, coincidiu com um salto atípico nas vendas de supermercados em todo o país. Dados da Abras mostram alta de 6,5% no Nordeste já na primeira semana de outubro. Mas será que o dinheiro das bets migrou mesmo para o carrinho de compras?

A resposta divide especialistas e expõe uma disputa narrativa com reflexos diretos no varejo e no bolso das famílias.

O que os números mostram — e o que eles não explicam sozinhos

Entre 5 e 11 de outubro, o varejo alimentar brasileiro cresceu 6,5% frente ao mesmo período de 2023. O Nordeste acompanhou a média nacional. Na semana seguinte, a expansão desacelerou para 6,3% no país e 4,5% na região, ainda assim acima do padrão histórico para o período.

O recorte por categorias reforça a hipótese de recomposição de despesa essencial: arroz, óleo, macarrão e café lideraram a alta. Segundo Marcio Milan, vice-presidente da Abras, o fenômeno foi “atípico e generalizado”, presente em todos os formatos — de atacarejos a mercearias de bairro.

O estudo considerou sazonalidade e séries históricas mensais. Ainda assim, a entidade evita cravar causalidade direta. “Reforça a possibilidade”, diz Milan, de que recursos antes destinados a apostas tenham migrado para o consumo doméstico.

Dois lados de uma mesma conta

Para o economista Erico Veras (UFC), a lógica fecha: o público mais endividado com bets tem propensão marginal a consumir alta, e alimentação é o primeiro destino. “Além de não gastarem com apostas, essas pessoas receberam o dinheiro que estava retido nas plataformas até 14 de outubro”, observa.

O contraponto vem do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR). Carlos Lima, presidente executivo, lista variáveis concorrentes no mesmo período: Desenrola Adimplentes, abono salarial, redução de tributos sobre combustíveis e bandeira verde na conta de luz. “Observar apenas a proibição não significa que ela seja a única explicação”, argumenta.

Lima acrescenta que o mercado ilegal de apostas teria crescido 101% após a MP, o que, se confirmado, desviaria parte do recurso de volta para o jogo — só que sem regulação nem arrecadação.

O que o varejo deve monitorar nas próximas semanas

  • Sazonalidade de fim de ano: novembro e dezembro já puxam consumo por 13º salário e festas; isolar o “efeito bets” ficará mais difícil.
  • Desenrola e benefícios: pagamentos residuais de programas de renegociação e abonos podem sustentar a demanda independentemente do veto às apostas.
  • Mercado paralelo: se o IBJR estiver certo, a migração para bets ilegais reduziria o fluxo de volta ao varejo formal.
  • Decisão do STF: audiências públicas em andamento podem alterar o regime regulatório — e, com ele, o comportamento do consumidor.

Por que isso importa para quem gere negócios

O varejo alimentar opera com margens finas e alta sensibilidade a choques de renda. Um incremento de 4% a 6% no ticket médio, mesmo que temporário, altera planejamento de estoque, logística e promoções. Se a hipótese de migração de gasto se confirmar, trata-se de um rearranjo estrutural de parcela do orçamento familiar — não apenas um soluço pontual.

Por outro lado, se o impulso vier majoritariamente de políticas de alívio de dívida e sazonalidade, a janela de oportunidade se fecha com o fim do ano. A distinção define se o investimento em expansão de sortimento e espaço de loja deve ser acelerado ou contido.

O que observar daqui para frente

A Abras promete novas rodadas de dados. O acompanhamento semanal das cestas essenciais, cruzado com indicadores de endividamento das famílias (BCB) e volume de pagamentos via Pix no varejo, dará a régua mais precisa. Enquanto o STF não pacifica o tema, o cenário segue em aberto: o dinheiro parou de ir para a aposta, mas ainda não está claro se ficou na despensa — ou apenas mudou de bolso.