Justiça

STF ouve só quem lucrou com bets: famílias perdem R$ 37 bi e ficam de fora

Sede do STF em destaque com silhuetas de famílias ao fundo representando exclusão da audiência sobre bets
STF realiza audiência sobre bets sem representantes de vítimas: 28 entidades convidadas, zero da sociedade civil

O Supremo Tribunal Federal realiza na terça-feira uma audiência pública decisiva sobre a medida provisória que proibiu as apostas online, mas a lista de convidados expõe um desequilíbrio gritante. Das 28 entidades chamadas a depor, nenhuma representa saúde pública, defesa do consumidor ou proteção à infância. A pergunta que fica no ar é simples: quem vai dar voz a quem perdeu dinheiro?

A pesquisa que mudou o jogo: 4 em cada 10 mulheres apostam para sobreviver

O estudo “Mulheres & Bets”, conduzido pelo estúdio CLARICE em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, ouviu mais de 2 mil brasileiras e fez 60 entrevistas em profundidade nas classes C, D e E. O retrato que emerge foge completamente da narrativa de mercado.

  • 40% das brasileiras já apostaram em algum momento.
  • A maioria não busca enriquecimento: joga para pagar conta de luz, material escolar ou a festa do filho.
  • Quando perdem, o buraco abre dentro de casa: “Às vezes não tem um grão de comida porque a pessoa jogou”, relatou uma entrevistada de 24 anos na Bahia.

O impacto transborda para quem não joga. Entre mulheres que convivem com apostadores, 14% deixaram de pagar contas, uma em cada quatro reporta brigas e perda de confiança e 23% dos brasileiros conhecem casos de violência familiar ligados às bets. O silêncio é comprado a peso de vergonha: 65% das que quiseram parar não buscaram ajuda por constrangimento.

A conta que não fecha: R$ 37 bi das famílias contra R$ 1 bi dos clubes

O argumento econômico costuma ser o escudo do setor. Em 2025, os clubes da Série A embolsaram cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios — o equivalente a 7% de suas receitas. No mesmo período, os apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O que o futebol recebeu corresponde a menos de 3% do que as famílias deixaram nas casas de aposta.

Mas o efeito mais relevante aparece na saúde pública. Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), o setor arrecadou R$ 6,8 bilhões em tributos federais entre fevereiro e setembro de 2025. A lei destina 1% dessa fatia ao Ministério da Saúde. Até agosto, haviam chegado à pasta apenas R$ 33 milhões. O mesmo instituto estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões ao ano os custos de saúde associados ao vício em jogos. A conta é paga pelo SUS e pelas famílias.

AGU e sociedade civil pressionam por equilíbrio, mas STF avança devagar

A própria Advocacia-Geral da União reconheceu o vício de origem na composição da audiência — majoritariamente formada por entidades esportivas e operadoras — e solicitou a inclusão de organizações como Idec, Dieese e CNBB. Trinta e nove entidades da sociedade civil, entre elas a CLARICE, escreveram ao ministro Luiz Fux pedindo representação equânime.

Até o momento, a lista foi ampliada apenas uma vez, para incluir o Comitê Olímpico do Brasil e o Ministério do Esporte. Uma audiência pública serve para instruir uma decisão; quando ela escuta só quem perde receita com a proibição, fica claro a serviço de quem ela está operando.

O que observar daqui para frente: Congresso e a pressão das ruas

A medida provisória segue agora para o Congresso Nacional, onde o debate deve ser feito por inteiro, com tempo e dados. Até lá, a tendência é que a proibição seja mantida; suspender a medida antes de ouvir as famílias seria decidir primeiro e escutar depois.

Enquanto as instituições hesitam, as mulheres brasileiras já estão agindo. Nas entrevistas, elas contam que confrontam parceiros, negociam dívidas, tomam celulares, buscam apoio na igreja e dormem na porta dos quartos dos filhos. Quando perguntadas, dizem com clareza o que querem. A sessão de terça-feira vai mostrar se o Estado está disposto a ouvi-las — ou se a conta continuará sendo paga só por quem não tem assento na mesa.