Economia

Juros altos: a conta que o governo não fecha e o BC não resolve sozinho

Gráfico de juros altos e deficit fiscal no Brasil com símbolos do Banco Central e Ministério da Fazenda
Juros reais elevados persistem enquanto gasto público cresce acima da economia brasileira

Os juros reais no Brasil não caem porque o gasto público cresce mais rápido que a economia há décadas. Trocar o ministro da Fazenda não muda essa equação.

Enquanto a liderança política não reconhecer essa relação direta, a Selic continuará elevada — independentemente de quem ocupe a cadeira no Ministério da Fazenda.

O diagnóstico que escapa ao debate público

A especulação sobre o próximo titular da Fazenda domina as manchetes. Nomes como Geraldo Alckmin e Rafael Fonteles circulam nos bastidores. Mas a discussão está deslocada: o problema não é quem assina os despachos, mas a dinâmica fiscal que empurra os juros para cima.

Os juros estão altos não por erro do Banco Central. Se a autoridade monetária cortasse a Selic sem que as condições fiscais permitissem, a inflação dispararia. O país já testou essa estratégia entre 2011 e 2014 — o resultado foi desastroso.

Dois fatos, uma consequência inevitável

A explicação para os juros reais elevados resume-se a dois vetores que atuam em conjunto:

  • O gasto primário real cresce sistematicamente acima do PIB.
  • A economia opera no limite da capacidade produtiva (plena carga).

Quando o Estado expande suas despesas mais rápido que a base material da economia, avança sobre os recursos do setor privado. Isso gera pressão inflacionária permanente — e, como resposta, juros altos também permanentes.

O padrão histórico que se repete

Os números não deixam margem para interpretação dúbia. Em todos os anos de gestão Lula, com exceção de 2003 e 2025, o gasto primário real superou o crescimento econômico.

A média anual do período mostra o descompasso: 7,8% de expansão do gasto contra 4% da economia. Quase o dobro. Em 2003, o gasto caiu 3,9% enquanto o PIB subiu 1,1%. Em 2025, o gasto cresceu 1,9% ante 2,3% do PIB. Dois pontos fora da curva que confirmam a regra.

Por que a troca de ministro não resolve

Fernando Haddad realizou um trabalho técnico competente. Não conseguiu, contudo, convencer a cúpula do governo de que reformas estruturais são indispensáveis para igualar a velocidade do gasto à da economia.

Sem esse alinhamento, a identidade macroeconômica é implacável: juros reais não caem. Aumentar a carga tributária — cortando subsídios e gastos tributários — melhora o superávit primário e a dinâmica da dívida, reduzindo o risco-país. Isso ajuda indiretamente. Mas para derrubar o juro real de forma direta, só há um caminho: conter a trajetória do gasto primário.

O que observar daqui para frente

O termômetro não é a posse do novo ministro, mas a sinalização política sobre o teto de expansão das despesas obrigatórias. Reformas na Previdência, no funcionalismo e nos gatilhos de indexação do Orçamento são os únicos movimentos que alteram a equação de fundo.

Enquanto o crescimento real do gasto público não for ancorado ao crescimento potencial da economia, o Banco Central terá de manter a Selic restritiva. O custo disso — investimento travado, crédito caro, crescimento medíocre — continuará sendo pago pelo setor produtivo e pelas famílias.

A bola segue com a liderança. E o placar não muda enquanto a regra do jogo não for alterada.