A mediana das projeções para o IPCA de 2027 saltou para 5,3%, enquanto a de 2028 foi a 4,3% — ambas bem acima da meta de 3%. A pesquisa da BGC Liquidez, feita logo após o segundo turno, revela um cenário que o relatório Focus só deve confirmar daqui a duas semanas.
O que muda no seu bolso e na Selic com esse descolamento brutal? A resposta passa pelo dólar, pela dívida pública e por uma conta trabalhista que poucos estão olhando.
O salto nos números que antecipa o Focus
A corretora ouviu cerca de 30 gestores e tesourarias de bancos — perfis que costumam revisar expectativas mais rápido que a média. O resultado assusta: a inflação projetada para 2027 subiu quase 1 ponto percentual em dias (de 4,34% para 5,3%). Para 2028, o avanço foi de 3,75% para 4,3%.
Onze por cento dos consultados veem o IPCA acima de 6% já no fim do próximo ano. Como a meta tem teto de 4,5%, o mercado já precifica estouro do alvo por dois anos consecutivos.
Dólar e gasto público: a combinação que pressiona preços
Segundo Carlos Thadeu, economista da BGC, dois vetores explicam a piora. O primeiro é a ausência de âncora fiscal: o mercado espera mais gastos com o novo governo. O segundo é o câmbio: o dólar pulou de R$ 4,99 para R$ 5,44 em poucas sessões.
O real mais fraco encarece itens administrados, sobretudo combustíveis. O Brasil importa 30% do diesel que consome. “Sem risco fiscal, o câmbio de equilíbrio seria R$ 4,50 ou menos”, calcula Thadeu. A diferença vai direto para a bomba — e para o IPCA.
A conta oculta do fim da escala 6×1
Há um terceiro fator ignorado nos modelos padrão: a aprovação da jornada 5×2. Thadeu estima que a mudança exige ao menos 10% a mais de mão de obra para manter a mesma produção.
- Custo direto: mais contratações e horas extras.
- Repasse: pressão sobre serviços e preços ao consumidor.
- Prazo: impacto sentido já na inflação do ano que vem.
É um choque de oferta trabalhista que se soma ao choque cambial e ao fiscal.
Dívida em 83% do PIB e o buraco de R$ 250 bi
O pano de fundo é a trajetória da dívida bruta, no maior nível em cinco anos. O governo projeta déficit primário de R$ 67,3 bilhões (0,5% do PIB) este ano, o que empurra a relação dívida/PIB ainda para cima.
Economistas calculam que seriam necessário um ajuste de pelo menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos — ou levar o superávit primário a 2%-2,5% do PIB até 2030. Até agora, não há sinalização clara nessa direção.
Juros: o corte que evaporou e a alta que vem aí
Com a Selic em 13,75%, a expectativa pré-eleição era de queda para 13,25% até o fim de 2026. A curva futura virou: precifica manutenção na reunião do Copom na quarta-feira (4), com só 20% de chance de corte de 0,25 ponto. Para 2024, a curva já embute alta de 1,5 ponto percentual.
Ou seja: o mercado trocou a aposta em afrouxamento por uma trajetória de aperto.
O que observar daqui para frente
Três gatilhos ditam os próximos passos: a pesquisa Focus de terça-feira (3), que deve espelhar os números da BGC; a ata e a decisão do Copom na quarta (4); e, principalmente, os primeiros anúncios da equipe econômica sobre a regra fiscal. Se não houver anúncio crível de contenção de gastos até o fim do ano, a projeção de 5,3% para 2027 pode se mostrar otimista.
