Meio Ambiente

Enchentes em Juiz de Fora: o segredo dos comerciantes que se recusam a fechar as portas

Comerciantes de Juiz de Fora limpando lojas alagadas após enchente histórica de fevereiro de 2026
Lojistas do centro histórico mostram resiliência ao reabrir portas mesmo com prejuízos milionários.

A água subiu, o estoque flutuou e o prejuíço bateu na casa dos milhões. Ainda assim, lojistas de Juiz de Fora encontraram formas de vender sem mercadoria na prateleira. A resposta está na relação que o dinheiro não compra.

Em fevereiro de 2026, a enxurrada atingiu o centro histórico e bairros como Linhares, Grajaú, Vitorino Braga, Santa Luzia e o Distrito Industrial. O Sindicomércio-JF estima R$ 50 milhões em perdas para comércio, atacado e serviços. Mas o número que assusta mesmo é outro: 81,8% dos empresários ouvidos não tinham seguro.

A virada que ninguém esperava no varejo de tintas

Na Rua Floriano Peixoto — alagada em 1906 e again em 2026 —, Ive Cristina de Assis e Márcio Menon de Almeida viram três máquinas de R$ 22 mil cada boiarem dentro da loja. A unidade recém-aberta em Ubá foi destruída. Prejuízo combinado: quase R$ 1,1 milhão.

Sem estoque, o casal fez o que o varejo de tintas raramente faz: passou a vender só por encomenda. Na primeira semana, ninguém quis esperar. Na terceira, o faturamento subiu cerca de 20%. “Quem sustentou a loja foram os clientes”, resume Márcio.

A mudança também veio do lado de fora. Clientes antes focados em cor passaram a pedir produtos contra infiltração e danos de novas enchentes. O casal já negocia um imóvel mais alto na mesma rua, com comportas na entrada.

Quando a resiliência vira exaustão

Não há fênix que aguente reerguer-se indefinidamente. José Joaquim Gama da Silva, 56 anos, enfrenta a sexta enchente em 26 anos de autopeças na Avenida Garibaldi Campinhos. Em 2018, quase se afogou dentro do estabelecimento. Em dezembro de 2025, perdeu R$ 70 mil. Em fevereiro de 2026, mais R$ 100 mil.

Hoje trabalha como vigilante à noite para fechar as contas. “Não consegui sair daqui porque os aluguéis estão todos caros por aí.”

Kátia Valéria Rios, 64 anos, dona de brechó, vive drama semelhante. Três enchentes — 2017, dezembro de 2025, fevereiro de 2026. Mudou de ponto, o aluguel subiu, voltou para área de risco. Para continuar, adotou consignação e exige termo de isenção de responsabilidade por perdas climáticas. “Se acontecer mais uma, eu não sei se vou resistir.”

O raio-X da vulnerabilidade: o que a pesquisa revela

O Sindicomércio-JF ouviu 277 empresários entre 23 de fevereiro e 4 de março de 2026. O retrato expõe a fragilidade estrutural:

  • 81,5% são pequenos negócios
  • 75,9% atuam no varejo
  • 60% relataram danos graves em estoques, móveis e equipamentos
  • 83,6% funcionam em imóveis alugados
  • 72,7% indicam necessidade de crédito bancário para recuperação
  • 40% temem endividamento severo
  • 16,4% veem risco real de fechamento
  • 14,5% consideram demissões

Para 65,5%, o acesso ao crédito era o principal desafio administrativo imediato.

Crédito chegou, mas é empréstimo — não indenização

Desde fevereiro, o BDMG liberou R$ 10,8 milhões para quase 140 pequenos negócios. O Banco do Brasil destinou cerca de R$ 55 milhões a 60-70 clientes via linha FGO Solidário, restrita a áreas demarcadas pela Defesa Civil. A Caixa não divulgou dados.

O economista Weslem Rodrigues Faria (UFJF) alerta: a recuperação pode levar meses ou anos. Juros altos e crédito caro, herdados do pós-pandemia, somam-se ao afastamento de clientes causado por ruas interditadas. “Precisam de coragem e recursos para sobreviver”, resume Emerson Beloti, presidente do Sindicomércio-JF.

Medidas individuais não bastam: o alerta do urbanismo

A arquiteta Raquel von Randow (UFJF) é direta: “Reconstruir sobre essas mesmas bases é apenas repor a vulnerabilidade no mesmo lugar.” Ela defende recuperação de córregos, redução da impermeabilização do solo e parques lineares para conter cheias. Sem planejamento urbano, o ciclo se repete.

O que a água não leva: clientela, memória e afeto

Manualdo Paulo de Jesus, 64 anos, conserta computadores há 16 anos na Rua Ibitiguaia. Após ressarcir dois notebooks na primeira enchente noturna, passou a deixar só sucatas no chão. “Eu já tenho a minha clientela formada.”

Mônica Salgado de Albuquerque, 30 anos de queijos e congelados na Avenida dos Andradas, viu a loja fechar ao meio-dia, clientes sumirem, mercadorias vencerem. Prejuízo acima de R$ 30 mil. A resposta: vídeos no Instagram, entregas, fornecedores que alongaram prazos e doaram caixas. “Já fui no fundo do poço, já voltei umas três vezes e estou aqui firme e forte.”

Para von Randow, cada porta que se mantém aberta preserva mais que empregos: guarda pontos de encontro, referências de afeto, a identidade dos bairros. “Quando um comércio local fecha, perde-se um local de troca.”

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão o próximo capítulo: a velocidade e as condições do crédito emergencial (juros reduzidos, carência longa), a disposição do poder público para obras de macro-drenagem e parques lineares, e a capacidade dos próprios lojistas de manter modelos híbridos — encomenda, delivery, presença digital — que reduzam dependência do estoque físico. O comerciante que esperar a água baixar para planejar o próximo passo pode não ter mais loja quando a próxima chuva chegar.