Justiça

Golpe do falso advogado: irmã usou dados da advogada real e levou R$ 163 mil da empresária

Golpe do falso advogado: documento forjado com timbre do Judiciário e videochamada com falsa promotora
Esquema usou dados reais da OAB e identidade visual do STJ para roubar R$ 163 mil de empresária em Praia Grande.

Uma empresária de 57 anos perdeu R$ 163 mil em Praia Grande (SP) após criminosos se passarem pela própria irmã, advogada registrada na OAB. O golpe combinou dados processuais reais, documento forjado com timbre do Judiciário e uma videochamada com falsa promotora usando identidade visual do STJ.

O caso, registrado em 23 de outubro, expõe como a engenharia social evoluiu: não basta mais reconhecer foto, nome ou voz. A vítima fez transferências e contraiu empréstimos acreditando pagar taxa para liberar valores judiciais e evitar problemas com a Receita Federal.

Como a fraude foi montada passo a passo

Os golpistas abordaram a empresária pelo WhatsApp apresentando número do processo, partes envolvidas e valor da causa — informações verdadeiras que dão credibilidade imediata. Em seguida, alegaram audiência por videoconferência com restrição de terceiros, isolando a vítima.

O documento falsificado com timbre do Poder Judiciário continha dados pessoais da empresária e da advogada Richarlla Lopes Lozada. Durante a chamada de vídeo, um criminoso usou foto de perfil com identidade visual do Superior Tribunal de Justiça, simulando promotor.

A orientação foi clara: usar outro celular para operações bancárias e pagar “taxa judicial” urgente. A pressão por urgência e a proibição de consultar terceiros são marcas registradas desse modelo de golpe.

O momento em que a farsa desmoronou

A empresária só desconfiou quando os criminosos tentaram acessar o cartão de crédito. Uma funcionária foi acionada para contactar a advogada real, que imediatamente orientou o fim do contato e o registro do boletim de ocorrência no 3º DP de Praia Grande.

O prejuízo de R$ 163 mil não se limita às economias: inclui empréstimos contraídos sob coação. “Além do prejuízo financeiro, existe um abalo emocional muito grande, porque os criminosos exploram justamente a confiança que a vítima deposita em alguém próximo”, relatou Richarlla.

Tecnologia a favor do crime: o que mudou

A advogada alerta para três frentes de sofisticação que tornam a verificação tradicional insuficiente:

  • Falsificação de identificação de chamadas (spoofing de número)
  • Reprodução de voz por inteligência artificial (deepfake de áudio)
  • Uso indevido de dados profissionais de advogados reais (OAB, foto, endereço)

“Não basta reconhecer a fotografia, o nome ou até mesmo a voz de alguém”, resume Richarlla. A confirmação deve ocorrer por canal conhecido previamente — número salvo na agenda, e-mail oficial ou encontro presencial.

Sinais de alerta que a vítima ignorou sob pressão

Três elementos deveriam acionar o ceticismo imediato:

  • Solicitação financeira inesperada vinda de “autoridade” judicial
  • Urgência extrema com ameaça de consequências (malha fina, bloqueios)
  • Proibição de falar com terceiros ou advogado de confiança

Nenhum tribunal ou Ministério Público exige pagamento via transferência bancária para liberar valores processuais. Custas, se existirem, são pagas por guias oficiais (GRU, DARJ, boletos do tribunal) — nunca para contas de pessoas físicas ou CNPJs desconhecidos.

O que fazer nas primeiras horas após o golpe

A velocidade da reação define a chance de recuperação. Roteiro prioritário:

  1. Contatar imediatamente os bancos envolvidos e contestar cada operação (guarde protocolos)
  2. Bloquear acessos comprometidos e trocar senhas de todos os canais
  3. Comunicar empréstimos fraudulentos às instituições credoras
  4. Registrar boletim de ocorrência (pode ser online em SP)
  5. Preservar todos os evidências: prints, áudios, números, documentos recebidos, comprovantes

Se o banco se recusar a estornar, a orientação é formalizar reclamação no Banco Central (consumidor.gov.br) e, se necessário, buscar assessoria jurídica para discutir a validade dos contratos firmados sob fraude e eventual responsabilidade da instituição por falha na prevenção.

O que observar daqui para frente

O caso ilustra uma tendência: golpes deixam de ser “amadores” e passam a operar como operações de inteligência, com dossier da vítima, roteiro jurídico crível e tecnologia de deepfake acessível. Bancos e tribunais terão de adotar verificação em múltiplos fatores fora de banda (fora do canal de contato suspeito) como padrão.

Para o empresário ou investidor, a lição prática é simples: nenhuma urgência justifica pular a verificação por canal independente. Salve o número do seu advogado, do seu contador e do seu gerente de banco antes de precisar deles. O custo de um minuto de confirmação é zero; o custo de não confirmar, neste caso, foi R$ 163 mil e dívidas que a vítima não tinha.