A indústria pernambucana cresceu 13,9% nos oito primeiros meses de 2026, puxada quase inteiramente pelo petróleo, mas o motor que sustenta empregos de alta tecnologia está perdendo força. Entender essa contradição define o próximo movimento de quem investe ou empreende no estado.
O salto de produção, medido pelo IBGE, tem um endereço certo: a Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Suape. Segundo o governo estadual, 70% da expansão nasce ali. Enquanto isso, o setor de alimentos — herdeiro direto da cana-de-açúcar — segue como maior empregador, mas atividades de ponta patinam na Região Metropolitana do Recife (RMR).
Onde os postos de trabalho estão — e onde não estão
Dados da Secretaria de Desenvolvimento Profissional (Sedepe) mostram o retrato fiel de 2025: a indústria de alimentos, incluindo usinas de açúcar e álcool, concentrou 34.770 admissões, 35% do total de 98.290 vagas formais. O restante se pulveriza em segmentos de média e baixa intensidade tecnológica.
- Confecção e vestuário: 8.563 admissões
- Minerais não metálicos (cimento, cerâmica, vidro): 6.587
- Manutenção e instalação de máquinas: 5.699
- Produtos de metal: 5.131
- Borracha e plástico: 5.032
- Veículos automotores: 4.069
- Resíduos e reciclagem: 3.745
O polo automotivo da Stellantis, em Goiana, puxa a fila dos veículos. No mesmo município, a Hemobrás — inaugurada em agosto de 2025 com capacidade para 1,2 bilhão de UIs de hemoderivados — tenta reduzir a dependência de importações para o SUS. Mas esses pontos fora da curva não mascaram a fragilidade do miolo metropolitano.
O “tendão de Aquiles” da Região Metropolitana
O doutorando Lucas André Penha dos Santos (UFPE) mapeou três décadas de Valor Adicionado Bruto (VAB) em cinco cidades-chave: Recife, Ipojuca, Cabo de Santo Agostinho, Jaboatão dos Guararapes e Olinda. O diagnóstico é de instabilidade crônica. A desindustrialização aqui não fecha chaminés; ela reduz a fatia da indústria na riqueza e no emprego formal.
Entre 2010 e 2019, o VAB industrial oscilou enquanto vagas formais encolhiam. O resultado direto: ramos de alta tecnologia — os mais dinâmicos e competitivos — apresentaram estagnação ou déficit. “A RMR não tem justamente essas indústrias mais competitivas como foco”, resume o pesquisador.
O efeito cascata atinge o mercado de trabalho. Trabalhadores dispensados da indústria migram para comércio e serviços, setores que nem sempre absorvem toda a mão de obra com qualidade. O resultado é um setor de serviços “inchado, caracterizado por baixa remuneração e dinâmicas exaustivas”, alerta o especialista.
Inovação: o elo faltante entre máquinas e futuro
O problema não é falta de investimento em equipamentos. Historicamente, o parque fabril da RMR concentra baixa e média tecnologia. O gargalo está na destinação dos recursos: compram-se máquinas, mas pesquisa e desenvolvimento (P&D) ficam em segundo plano.
Para reverter o quadro, o pesquisador aponta três eixos indivisíveis: ampliar a capacidade de inovação, qualificar tecnologicamente a força de trabalho e fortalecer a pesquisa aplicada. “A resposta não está apenas em um processo. Se não construir uma conjuntura industrial mais dinâmica, seja por programas estratégicos ou pela aproximação da academia com a indústria, não veremos competitividade real”, avalia.
Essa ponte exige sintonia entre políticas nacional e estadual. Importar modelos prontos sem adaptá-los à realidade socioeconômica pernambucana, segundo o geógrafo, repete o erro de sempre.
O roteiro do governo e o que observar daqui para frente
A secretária de Desenvolvimento Econômico, Danielle Jar Souto, aposta na transição energética como vetor da próxima década. Dois pilares sustentam a estratégia:
- Expansão da RNEST: Investimento estimado entre R$ 12 bilhões e R$ 13,5 bilhões para mais que dobrar a capacidade — de 70 mil para 260 mil barris/dia a partir de 2029.
- Cadeia de biomassa: Estudo “Roda de Pernambuco de Combustíveis Sustentáveis” (parceria com Instituto Clima e Sociedade) a ser lançado até fim de 2026.
Paralelamente, o Porto de Suape recebe aportes para escoar a produção extra, e a malha rodoviária e aeroportuária ganha prioridade. Na ponta da inovação, um Comitê de Simplificação do Ambiente de Negócios — ativo há seis meses — tenta conectar academia e mercado. Uma cooperação com a UPE visa mapear talentos e desenhar formações sob demanda das empresas.
O que monitorar: a execução do cronograma da refinaria (atrasos aqui derrubam a projeção de 13,9% para anos seguintes), a saída do papel do plano de biocombustíveis e, principalmente, se a parceria UPE-empresas consegue migrar da “formação genérica” para a especialização em P&D. Sem esse salto, Pernambuco corre o risco de ter uma indústria maior, mas não mais sofisticada.
