A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) confirmou nesta sexta-feira (30) que a bandeira tarifária segue verde em novembro. Pelo segundo mês consecutivo, não haverá cobrança adicional nas faturas de energia dos consumidores conectados ao Sistema Interligado Nacional.
A decisão representa alívio direto no orçamento de famílias e empresas após cinco meses de bandeira amarela. Mas a calmaria tem data para ser testada: o regime de chuvas nos próximos 30 dias definirá se o cenário se sustenta em dezembro.
O que mudou nos reservatórios
O acionamento da bandeira verde reflete a recuperação dos níveis de água nas principais bacias hidrelétricas do país. Com reservatórios mais cheios, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) reduz o despacho de usinas termelétricas — fontes mais caras e poluentes que pressionam o custo marginal da energia.
Em outubro, a transição da bandeira amarela para a verde já havia sinalizado essa melhora. A manutenção em novembro confirma que a tendência não foi pontual. Dados do ONS mostram que o armazenamento equivalente no Sudeste/Centro-Oeste — subsistema que concentra cerca de 70% da capacidade de armazenamento do país — encerrou outubro acima da média histórica para o período.
Impacto no bolso: a conta do alívio
Enquanto a bandeira amarela vigorou, de maio a setembro, cada 100 kWh consumidos custaram R$ 1,885 a mais. Para uma residência com consumo médio de 350 kWh/mês, isso representava cerca de R$ 6,60 mensais de acréscimo. Pequenos comércios e indústrias de médio porte sentiram peso proporcionalmente maior.
Com a bandeira verde, esse adicional some a zero. A economia anualizada, caso o cenário se mantenha por 12 meses, superaria R$ 79 para o consumidor residencial médio — valor que, multiplicado pelas quase 90 milhões de unidades consumidoras do SIN, movimenta bilhões na economia real.
- Bandeira verde: sem acréscimo
- Bandeira amarela: R$ 1,885 / 100 kWh
- Bandeira vermelha patamar 1: R$ 4,46 / 100 kWh
- Bandeira vermelha patamar 2: R$ 7,87 / 100 kWh
O mecanismo por trás das cores
Criado em 2015, o sistema de bandeiras tarifárias transfere para o consumidor final a variação do custo marginal de geração. A metodologia considera projeções de carga, disponibilidade hídrica, geração eólica e solar, além do custo de operação das termelétricas necessárias para atender a demanda.
A cor da bandeira é definida mensalmente pela Aneel com base no Programa Mensal de Operação (PMO) do ONS. Não há decisão política: o gatilho é puramente econômico e hidrológico. Quando o Custo Marginal de Operação (CMO) supera determinados limiares, a bandeira muda automaticamente.
O risco que permanece no radar
Novembro marca o início do período úmido no Sudeste, mas a transição climática ainda carrega incerteza. O fenômeno La Niña, com probabilidade acima de 60% segundo modelos internacionais, tende a trazer chuvas abaixo da média na região Sul e volumes irregulares no Sudeste. Se a precipitação frustar as projeções, os reservatórios podem voltar a pressionar o despacho termelétrico já em dezembro.
Além disso, a expansão da carga — puxada pela recuperação industrial e pela eletrificação de frotas — eleva a demanda de base. O sistema precisará de mais energia firme, o que reduz a margem de segurança hídrica.
O que observar daqui para frente
O próximo anúncio da Aneel está previsto para o final de novembro. Até lá, três variáveis merecem monitoramento contínuo: a curva de afluências nas bacias do Paraná e Tocantins, o ritmo de entrada de novos parques eólicos e solares no SIN, e o comportamento do CMO no mercado de curto prazo. Empresas com contratos de energia indexados ao PLD (Preço de Liquidação de Diferenças) devem incorporar esse risco nas projeções de fluxo de caixa do primeiro trimestre de 2027.
