O São Paulo igualou sua pior marca histórica longe do Morumbis: 17 jogos consecutivos sem vencer, repetindo um fantasma que assombrava o clube desde 1980. A derrota para o Bahia expõe uma hemorragia de competitividade que troca de técnico, muda elenco e insiste em não estancar.
O que transforma um gigante em figurante quando joga fora dos seus domínios? A resposta passa longe de uma explicação única.
O tamanho do abismo nos números
A série atual acumula 12 derrotas e apenas cinco empates. Para dimensionar: no Brasileirão de 2023, mesmo ano da taça da Copa do Brasil, o time venceu uma única vez em 19 partidas como visitante. O aproveitamento foi de 19,3% — o mesmo índice de um time de zona de rebaixamento.
Curiosamente, aquele triunfo solitário aconteceu justamente contra o Bahia, na Fonte Nova. Três anos depois, o mesmo adversário carimbou o recorde negativo.
Doença crônica: ataque inofensivo, defesa vazada
O problema não se resume ao “fator casa”. A produção ofensiva desabou: foram 79 gols em 66 jogos na temporada passada, a terceira pior marca do século. Em 2022, a mesma estrutura balançou as redes 119 vezes em 77 partidas.
A defesa, antes trunfo, ruiu. No último campeonato nacional, a equipe sofreu 47 gols em 38 rodadas — pior registro desde 2017. O ataque marcou 43, dez a menos que no ano anterior. Menos gols feitos, mais gols sofridos: a equação perfeita para a mediocridade.
- Gols marcados (2022): 119 em 77 jogos
- Gols marcados (2025): 79 em 66 jogos
- Gols sofridos no BR-25: 47 (pior desde 2017)
- Gols marcados no BR-25: 43 (queda de 10 vs 2024)
Não é só o técnico: a troca que não resolve
Dorival Júnior retorna ao comando e encontra o mesmo cenário que herdou em gestões anteriores. A diretoria reformulou o elenco, promoveu limpas no vestiário e investiu em contratações. Ainda assim, a curva de desempenho aponta para baixo.
Isso sugere um entrave estrutural — seja na metodologia de treinos, na transição defesa-ataque ou na gestão psicológica de jogos de alta pressão fora de casa. A persistência do padrão indica que a raiz não está no nome à beira do gramado.
A ironia do calendário e a conta da Libertadores
Estacionado com 43 pontos, o Tricolor vê a vaga direta na Libertadores escorregar. A próxima rodada reserva um capítulo à parte: o clássico contra o Corinthians terá mando são-paulino, mas será disputado na Vila Belmiro. O Morumbis está bloqueado para um show de K-pop.
Na prática, o time fará mais um “jogo fora de casa” decisivo justamente quando precisa quebrar o jejum para seguir vivo na briga continental. O calendário, mais uma vez, não perdoa.
O que observar daqui para frente
A quebra da sequência negativa passa, obrigatoriamente, por ajustar o sistema defensivo sem abrir mão da posse de bola nos primeiros 15 minutos — momento em que o time costuma sofrer gols em contra-ataques. Outro termômetro será a eficiência nas bolas paradas ofensivas, única via consistente de gols nos últimos meses. Se o padrão de 2023/2025 se mantiver, a briga será por Sul-Americana, não por Libertadores.
