O Brasil construiu um Estado que tenta atender a todos — da elite aos mais pobres — e a conta chegou. O resultado é uma economia estagnada, uma carga tributária sufocante e um pacto democrático que range sob o peso de demandas impossíveis de sustentar.
Marcos Mendes, autor de “Por que o Brasil Cresce Pouco?”, mapeou essa armadilha há mais de uma década. O diagnóstico: o país transitou para a democracia em 1985 com uma desigualdade brutal. A elite manteve seus privilégios do regime militar. O eleitor mediano, pobre, exigiu políticas sociais. O Estado inchou para servir a ambos.
Como o arranjo funcionou — e por que ruiu
Por um tempo, a equação fechou. A expansão da China puxou exportações brasileiras. A carga tributária e a dívida ainda eram gerenciáveis. O Estado provedor amplo mitigava o conflito distributivo: todos se sentiam atendidos. A democracia se consolidou.
Mas o modelo carregava vícios fatais: economia fechada, subsídios distribuídos por critério político, corte crônico em infraestrutura, pressão inflacionária e juros altos. O crescimento médio anual do PIB, que beirava 4% na década anterior a 2012, entrou em queda livre.
Com pouco crescimento e ônus fiscal crescente, o Estado deixou de conseguir atender a todas as demandas. O ressentimento floresceu: quem não ascende socialmente ou acha que paga mais do que recebe passa a questionar o sistema. A tensão política sobe. O pacto democrático se fragiliza.
Onde a aposta social falhou
Havia uma rota de fuga. Se o gasto social tivesse criado uma nova classe média instruída, segura e produtiva, a dependência de assistência cairia. A pressão por crescimento substituiria a pressão por benesses. A produtividade subiria. A desigualdade continuaria caindo.
Não aconteceu. Os números mostram o fracasso:
- O gasto em educação multiplicou-se sem melhorar o ensino
- Privilégios e subsídios à elite cresceram
- Um eleitorado dependente de assistência tornou-se conveniente
- Financiamento de campanhas em troca de benesses a empresas virou regra
Resultado: a desigualdade parou de cair. O Brasil permanece entre os mais desiguais do mundo. Quase 10 milhões de pessoas ainda vivem na pobreza extrema, apesar da multiplicação de verbas sociais. O modelo emperrou antes de gerar nova dinâmica social e econômica.
Choques recentes agravaram a fratura
Três fenômenos recentes pioraram o cenário. A polarização internacional, turboalimentada por redes sociais, contaminou o debate doméstico. O crime organizado expandiu-se, corroendo a segurança e a confiança institucional. A Covid-19 impôs custos fiscais e traumas sociais ainda não totalmente absorvidos.
As redes de influência levaram à corrupção generalizada. O contágio atingiu o principal garantidor da estabilidade democrática — o STF —, que passou a operar, na visão de Mendes, sob lógica de proteção de grupos e viés partidário.
O que observar daqui para frente
Não há saída simples. Qualquer reforma estrutural exige enfrentar interesses consolidados de ambos os lados do espectro: a elite que não abre mão de subsídios e isenções, e a base dependente de transferências que não geram autonomia. O espaço fiscal para comprar paz social encolheu.
O cenário-base prevê continuidade do baixo crescimento, pressão por expansão de gastos obrigatórios e judicialização de conflitos distributivos. Para o investidor e o empresário, a variável-chave não é o próximo ciclo eleitoral, mas a capacidade do sistema político de negociar um novo pacto fiscal — sem o qual a instabilidade institucional tende a se tornar crônica.
