Cultura

IA e racismo: o debate que investidores não podem ignorar em novembro…

Flica 2026: evento literário na Bahia debate racismo algorítmico e inteligência artificial
A 14ª Flica reúne especialistas em Cachoeira (BA) para discutir vieses raciais em sistemas de IA entre 5 e 8 de novembro.

A 14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica) coloca o racismo algorítmico no centro da programação entre 5 e 8 de novembro, no Recôncavo baiano. O evento gratuito reúne especialistas em tecnologia, literatura e políticas raciais para expor como sistemas de inteligência artificial reproduzem desigualdades históricas. A pergunta que fica: até que ponto seu negócio ou portfólio está exposto a esses vieses?

O fato: literatura, ancestralidade e código se encontram na Bahia

A Flica 2026 dedica sua Tenda Paraguaçu a quatro dias de debates sobre letramento racial, memória afro-brasileira e os riscos da IA. A curadoria, assinada por Marielson Carvalho, inspira-se no educador Paulo Freire para defender que o letramento começa na leitura das experiências comunitárias — não apenas nos livros. Entrada gratuita, público esperado nas centenas, impacto potencialmente global.

Por que isso atinge direto o bolso de quem investe em tecnologia

Vieses raciais em algoritmos não são falhas técnicas isoladas; são riscos regulatórios, reputacionais e financeiros. A cientista da computação Nina da Hora, uma das atrações principais, lança na festa o livro “Do rosto ao vetor: uma história da medição do rosto, da eugenia ao algoritmo”. Sua tese: “A IA aprende com dados, e os dados que temos no Brasil carregam a nossa história. Um sistema treinado com isso aprende essas diferenças como se fossem normais e devolve o resultado com cara de decisão técnica.”

Para fundos de venture capital, corporações de RH tech, fintechs de credit scoring e healthtechs de diagnóstico, a mensagem é clara: dados enviesados geram produtos enviesados. Produtos enviesados atraem multas, boicotes e perda de mercado.

A agenda que todo gestor de risco deveria anotar

A programação técnica da Tenda Paraguaçu desenha um roteiro prático de onde estão os pontos cegos atuais:

  • 5 nov, 11h — “Penso, logo… IA: distopias à vista?” com Miriam Leitão (jornalista) e Nina da Hora (cientista da computação). Mediação: Zulu Araújo.
  • 6 nov, 15h — “Inteligência ancestral, memórias afrofuturistas” com Ale Santos (escritor, referência em afrofuturismo) e Cesar Sobrinho (pesquisador). Mediação: Cristian Sales.
  • 7 nov, 18h — “Inteligência artificial e racismo – Algoritmos da branquitude” com Nilma Lino Gomes (pedagoga, ex-ministra) e Tarcízio Silva (pesquisador em políticas tecnológicas). Mediação: Jamile Borges (vice-reitora UFBA).

O sarau “Sued Nunes Não Anda Só” (5 nov, 19h) completa a grade com artistas do Recôncavo, mostrando que a economia criativa negra move cifras reais — e invisíveis para métricas tradicionais.

O elo entre ancestralidade e futuros possíveis

A mesa de sexta-feira (6) conecta tecnologias ancestrais a novas estéticas em games, audiovisual e literatura. Não é folclore: é P&D cultural. Empresas de entretenimento e edtechs que ignoram esse repertório perdem talentos, narrativas e mercados emergentes. O afrofuturismo brasileiro, liderado por nomes como Ale Santos, já inspira roteiros, design de mundos virtuais e estratégias de marca globais.

O que observar daqui para frente

O debate de encerramento (7 nov) com Nilma Lino Gomes e Tarcízio Silva deve sinalizar caminhos regulatórios — o Brasil discute marcos legais de IA e o PL 2338/2023 tramita no Congresso. Quem atua em compliance, governança de dados ou public affairs tem na Flica uma janela antecipada de como a sociedade civil organizada vai pressionar por auditoria algorítmica, transparência de dados de treino e diversidade nas equipes de desenvolvimento. Acompanhar as falas de Nina da Hora e Tarcízio Silva nas redes após o evento é um atalho barato para inteligência estratégica de alto valor.