Um júri em St. Louis inocentou a Bayer nesta quinta-feira (29) das acusações de que o herbicida Roundup causou câncer em três mulheres. A vitória judicial chega no momento exato em que a gigante alemã negocia um mega-acordo de US$ 7,25 bilhões para encerrar dezenas de milhares de processos semelhantes.
O veredicto unânime funcionou como um termômetro: foi o primeiro grande teste desde que a Suprema Corte dos EUA restringiu os argumentos que advogados de vítimas podem usar. A resposta do mercado foi imediata — as ações subiram 4%, tocando a máxima de um mês.
Por que este julgamento muda o jogo para os 65 mil processos restantes
A Bayer carrega o passivo judicial da Monsanto desde a aquisição de 2018. Até aqui, a conta já ultrapassa bilhões de dólares em acordos e condenações anteriores. A decisão da Suprema Corte em junho, contudo, alterou o tabuleiro: proibiu que autores aleguem “falha no rótulo”, já que a EPA (agência ambiental dos EUA) aprova o texto das embalagens e não exige alerta de câncer.
Sem esse argumento central, os advogados das autoras — Theresa Aretino, Cynthia Fernandez e Betty Larkin — tentaram pivotar para “defeito de fabricação” e “negligência na comercialização”. O júri rejeitou a tese por unanimidade.
O recado direto do jurídico da Bayer para o mercado
Bill Dodero, diretor jurídico global da companhia, não usou meias palavras ao comentar o resultado. Para ele, o veredicto sinaliza “desafios significativos” para qualquer autor que insista em levar casos a julgamento sob a nova jurisprudência.
Traduzindo para o language dos investidores: a barreira de entrada para novas condenações subiu drasticamente. Isso aumenta a previsibilidade do passivo e fortalece a posição da Bayer na negociação do acordo global de US$ 7,25 bilhões (cerca de R$ 38,9 bilhões), que ainda depende de homologação judicial no Missouri.
- Processos ativos: ~65 mil em tribunais estaduais e federais.
- Acordo proposto: US$ 7,25 bi (pendente de aprovação de juiz em St. Louis).
- Autoras do caso teste: Três mulheres com linfoma não Hodgkin; uma faleceu antes do julgamento.
- Reação do mercado: Alta de 4% nas ações, maior nível em 30 dias.
O entrave científico que ainda assombra o balanço
Apesar da vitória processual, a disputa científica permanece aberta. A Iarc (braço da OMS para pesquisa em câncer) classifica o glifosato como “provavelmente cancerígeno” desde 2015. A EPA discorda, afirmando que o ingrediente “provavelmente não é cancerígeno”.
No momento, a EPA conduz uma nova reavaliação de segurança. Qualquer mudança na posição oficial da agência americana reabriria a porteira para novos litígios baseados em rótulo — justamente o argumento que a Suprema Corte bloqueou.
O que observar daqui para frente
A homologação do acordo global no Missouri é o próximo marco crítico. Se o juiz aprovar os termos, a Bayer remove a maior incerteza do seu balanço desde 2018. Caso contrário, a empresa volta a depender de vitórias case a case — estratégia que funcionou hoje, mas carrega risco de “cisne negro” em júris simpáticos a vítimas.
Para quem acompanha o papel (BAYRY / BAYN.DE), o sinal verde do júri reduz o prêmio de risco imediato. Mas a caneta do juiz do Missouri e a futura posição da EPA continuam ditando o preço justo da ação no médio prazo.
