Meio Ambiente

Multa de R$ 890 mil: o que o milho transgênico faz no entorno do Parque das Emas

Vista aérea do Parque das Emas com lavouras de milho transgênico na zona de amortecimento
Milho transgênico cultivado ilegalmente na zona de amortecimento do Parque das Emas, em Goiás.

Três propriedades rurais no sudoeste de Goiás foram autuadas em quase R$ 900 mil por cultivarem milho geneticamente modificado na zona de amortecimento do Parque Nacional das Emas. A operação, conduzida pelo Ibama e pelo ICMBio, cobriu 645 hectares e expôs um risco que vai além da multa: a contaminação genética de uma das últimas grandes áreas de Cerrado preservado.

Mas por que uma faixa de 500 metros ao redor do parque preocupa tanto os órgãos ambientais?

O que a lei proíbe — e por que a zona de amortecimento existe

A Lei 11.460/2007 veda o plantio de organismos geneticamente modificados (OGMs) em Unidades de Conservação e Terras Indígenas. O Decreto 5.950/2006 estende a restrição ao entorno imediato desses territórios, criando zonas de amortecimento onde o cultivo transgênico é proibido para evitar a dispersão de material genético.

No caso do Parque das Emas, a faixa de proteção tem raio de 500 metros a partir dos limites da unidade. As três propriedades autuadas somam 11,39% de toda essa área de amortecimento — um percentual significativo para uma única operação de fiscalização.

Como a fiscalização chegou a esse número

Foram 38 ações de vistoria na zona de amortecimento. Em três fazendas, os agentes encontraram lavouras de milho transgênico já encerradas — ou seja, a colheita havia ocorrido, mas o plantio irregular ficou registrado no solo e nos resíduos da cultura.

Cada auto de infração reflete a extensão da área cultivada fora da lei. O total: aproximadamente R$ 890 mil em multas.

  • Área total fiscalizada: 645,43 hectares
  • Propriedades autuadas: 3
  • Participação na zona de amortecimento: 11,39%
  • Valor total das multas: ~R$ 890 mil

Riscos que não param na cerca da propriedade

O Ibama lista três ameaças principais quando genes transgênicos migram para áreas protegidas:

  • Transferência de genes para espécies selvagens nativas do Cerrado
  • Desenvolvimento de resistência a pesticidas em pragas e plantas daninhas
  • Impacto sobre insetos não-alvo — polinizadores e predadores naturais que circulam entre a lavoura e o parque

Durante a operação, nenhum cultivo de OGM foi encontrado dentro dos limites do parque. A fiscalização na zona de amortecimento ocorre desde 2008, justamente para manter essa barreira funcional.

O que muda para quem produz na região

Agricultores e gestores das propriedades vistoriadas receberam orientações técnicas sobre as normas de biossegurança e os impactos ambientais associados ao milho transgênico. A intenção declarada dos órgãos é coibir a reincidência, não apenas punir.

Mas a pressão por área agricultável no entorno de unidades de conservação tende a crescer. O Cerrado goiano é uma das fronteiras agrícolas mais dinâmicas do país, e a interface entre lavoura e parque continua sendo um ponto de tensão regulatória.

O que observar daqui para frente

Produtores rurais com áreas na zona de amortecimento do Parque das Emas — e de outras unidades de conservação com restrições semelhantes — devem revisar seus planos de cultivo antes da próxima safra. A fiscalização do Ibama na região é contínua e o uso de imagens de satélite tem tornado a detecção de plantios irregulares mais rápida e precisa.

Para investidores e empresas do agronegócio, o caso sinaliza que o custo de conformidade ambiental na borda de áreas protegidas não é opcional: ele entra direto na planilha de viabilidade do projeto.