Economia

R$ 8,9 bi em transmissão: veja quem levou os 8 lotes e os deságios recordes

Leilão de transmissão de energia na B3 com investimento de R$ 8,9 bilhões e deságios recordes
Certame na B3 define expansão da rede de transmissão em sete estados nos próximos cinco anos

A Aneel arrematou R$ 8,9 bilhões em investimentos no último leilão de transmissão de 2026, com deságios que superaram 57% e uma disputa acirrada de 150 lances por um único lote. O certame, realizado na B3 em São Paulo, define a expansão da rede em sete estados nos próximos cinco anos. Mas a lista de vencedores reserva surpresas para quem acompanha o setor.

A disputa que fez o preço desabar

O leilão foi marcado pela agressividade dos lances. A média de deságio ficou elevada, sinalizando apetite das grandes transmissoras por ativos de longo prazo. O lote 3, em São Paulo, registrou o maior desconto da história recente: 57,08% sobre a Receita Anual Permitida (RAP) teto.

O lote 1, na Bahia, protagonizou o “viva-voz” mais longo do dia. Após propostas em envelope, Neoenergia e Tradetek travaram uma guerra de 150 rodadas de lances orais. A Neoenergia levou com deságio de 51,21%.

Essa dinâmica pressiona a tarifa final para o consumidor, já que a RAP menor reduz o custo de transporte da energia repassado às contas de luz.

Quem são os grandes vencedores da rodada

Cinco grupos dividiram os oito lotes, com destaque para quem conseguiu adquirir ativos em blocos estratégicos. A Neoenergia e a Celeo saíram com dois lotes cada. Confira a distribuição:

  • Celeo Redes Brasil: Lotes 4 (PR/MS/GO) e 8 (RO).
  • Cymi Construções: Lotes 3 (SP) e 5 (PR).
  • Neoenergia: Lotes 1 (BA) e 7 (PB).
  • Cox Brasil: Lote 6 (PR – Santa Terezinha do Itaipu).
  • EDP: Lote 2 (GO/BA).

O lote 4, o maior do certame, ficou com a Celeo por R$ 377 milhões de RAP (deságio de 50,55%). Sozinho, ele concentra R$ 4,1 bilhões em investimentos e mais de 8,2 mil empregos.

O mapa dos investimentos: onde o dinheiro vai cair

As obras somam 1.866 km de novas linhas e 12.694 MVA em transformação. Os prazos de execução variam entre 42 e 60 meses, com concessões de 30 anos. O impacto regional é assimétrico:

  • Sul/Centro-Oeste (Lote 4): Reforço no Mato Grosso do Sul e escoamento de geração (PR, MS, GO).
  • Sudeste (Lote 3): Atendimento à região metropolitana de São Paulo com 45 km de linhas.
  • Nordeste (Lotes 1 e 7): R$ 1,16 bi para sul/centro-sul da Bahia e sertão da Paraíba (351 km).
  • Sul (Lotes 5 e 6): R$ 1,46 bi para Curitiba, oeste e sudoeste do Paraná.
  • Norte (Lote 8): Estabilidade para Acre e Rondônia via Subestação Porto Velho (R$ 753 mi).
  • Nordeste/Centro-Oeste (Lote 2): Conexão Bahia-Goiás para atender nordeste goiano (R$ 317 mi).

O cenário acumulado e o que observar daqui pra frente

Segundo o Ministério de Minas e Energia, os leilões de transmissão entre 2023 e 2026 já mobilizam R$ 69,64 bilhões em investimentos estimados (R$ 77,54 bi corrigidos pelo IPCA). O volume coloca a expansão da malha como um dos principais vetores de capex em infraestrutura no período.

Para investidores e gestores de risco, três pontos merecem monitoramento nos próximos trimestres:

  • A capacidade de execução das vencedoras dentro dos prazos regulatórios (42 a 60 meses), evitando multas e prorrogações.
  • O comportamento das curvas de juros longas, que impactam a viabilidade financeira de projetos com RAP já definida.
  • Os próximos editais da Aneel, que devem manter a tendência de lotes regionais menores para atrair novos entrantes além dos grandes grupos consolidados.

O leilão encerra o ciclo de 2026 com sinal claro: o capital está disponível, mas a disciplina de preço ditou o ritmo. Quem consegue transformar deságio agressivo em entrega física no prazo define a próxima rodada de valor no setor.