O Partido Comunista da China expulsou um número recorde de 33 integrantes em seu quinto plenário, marcando a maior queda de presença na história recente do órgão. Mas o que chama atenção não é só a quantidade: 16 dos punidos são militares de alta patente, sinalizando uma limpeza sem precedentes nas Forças Armadas. O movimento levanta uma pergunta incômoda: Xi Jinping está apenas combatendo corrupção ou blindando seu projeto de poder para 2027?
A sangria no Comitê Central e o recado para 2027
Dos 370 membros originais do Comitê Central eleito em 2022, apenas 279 compareceram ao encontro de quatro dias em Pequim. Para efeito de comparação: o plenário anterior, em outubro de 2025, teve 315 presentes; o de julho de 2024, 364. A erosão é visível e acelerada.
O comunicado oficial admite que a liderança partidária foi “enfraquecida ou esvaziada” em alguns momentos e promete “virar a faca contra si mesmo”. Na prática, o expurgo eleva para 51 o total de expulsos no terceiro mandato de Xi — contra 35 no primeiro e apenas cinco no segundo. Paralelamente, 680 mil quadros foram punidos disciplinarmente apenas nos nove primeiros meses deste ano.
É a primeira vez em 14 anos de gestão Xi que a participação em um plenário cai abaixo de 300 nomes. O recado é claro: a disciplina partidária sobrepôs-se às pautas econômicas e sociais que dominavam reuniões anteriores.
Por que o alvo principal são os generais?
A fatia militar no expurgo — quase metade dos expulsos — é descrita por analistas do Asia Society Policy Institute como “algo sem precedentes”. Nomes como os ex-generais Zhang Youxia, Liu Zhenli e He Weidong (afastado em 2025) deixam a Comissão Militar Central, o órgão que comanda o Exército Popular de Libertação.
A comissão, que já teve sete integrantes, foi reduzida a dois: o próprio Xi Jinping e o recém-promovido Zhang Shengmin. O Politburo, núcleo decisório de 24 membros, opera hoje com 22 cadeiras preenchidas após as quedas de Ma Xingrui (ex-chefe do partido em Xinjiang) e dos generais.
Especialistas alertam que a decapitação do alto escalão militar levanta “sérias dúvidas sobre a liderança organizacional e a prontidão para o combate”, mesmo com a exibição constante de novos equipamentos bélicos.
Os nomes que caíram e o que eles revelam
- Ma Xingrui: Ex-secretário do Partido em Xinjiang, região estratégica e sensível.
- Zhang Youxia: Ex-vice-presidente da Comissão Militar Central, figura histórica do establishment militar.
- Liu Zhenli: Ex-chefe do Estado-Maior Conjunto.
- Liu Jianchao: Ex-diplomata de destaque, desaparecido da vida pública desde julho de 2024.
Segundo Chong Ja Ian, do Carnegie China, a campanha funciona menos como combate a desvios de verba e mais como “esforço para consolidar e manter a autoridade”. Xi tem “poucos escrúpulos em afastar pessoas que ele próprio promoveu”, o que reforça o quão inabalável sua posição parece no momento.
O que observar daqui para frente: sucessão ou vácuo?
O pano de fundo é o 21º Congresso do Partido, previsto para 2027, onde será definido o próximo líder. A aposta majoritária entre analistas é que Xi buscará um quarto mandato, algo inédito desde Mao Tsé-Tung.
A nova geração de quadros que sobe — como Zhang Shengmin — carrega perfil tecnocrático, idade mais jovem e vínculos diretos com a rede política do atual líder. O controle sobre as indicações provinciais será o termômetro da consolidação desse poder.
No entanto, a concentração extrema de decisões em uma única figura carrega um risco estrutural: a longo prazo, pode abrir caminho para um vácuo de poder ainda mais grave quando o ritmo natural da biologia impor seus limites. O mercado e os governos estrangeiros farão bem em monitorar não apenas quem sai, mas quem preenche as lacunas deixadas no tabuleiro.
