Cultura

Lista secreta de restaurantes “de esquerda” explode nas redes e vira arma contra boicote

Grupo diversificado em restaurante de SP, simbolizando solidariedade contra boicote a estabelecimentos progressistas
Onda de solidariedade digital transforma listas de boicote em guias de prestígio para restaurantes em São Paulo.

Uma onda de solidariedade digital transformou listas de boicote em guias de prestígio para dezenas de bares e restaurantes em São Paulo. O movimento nasceu como resposta direta a campanhas que miravam estabelecimentos associados a posições progressistas. Agora, donos de casas premiadas veem o fluxo de clientes mudar de lado da noite para o dia.

Tudo começou quando apoiadores de Flávio Bolsonaro circularam nomes de negócios supostamente alinhados à esquerda para incentivar o não consumo. A reação veio em horas: consumidores e empresários viraram a mesa, compartilhando os mesmos endereços como roteiro de apoio.

Chefs estreladas viram símbolos da resistência comercial

Nomes como Janaína Torres (Bar da Dona Onça), Bel Coelho (Cuia e Clandestino) e Rodrigo Oliveira (Mocotó) aparecem no topo das listas de “prestígio”. Paola Carosella (La Guapa) e Ipe Moraes (Casa Europa) completam o grupo de empreendedores que, de uma hora para outra, viram seus CNPJs transformados em bandeiras políticas.

Bel Coelho resume o sentimento: a esquerda finalmente entendeu a lógica das redes e a necessidade de ser propositiva. A mobilização ganhou tração após o deputado André Janones ajudar a organizar o chamado “Exército do Lula”, estrutura digital que amplificou o contra-ataque.

O mapa do consumo ideológico na Vila Madalena

Segundo Bel, a clientela de seus restaurantes já é majoritariamente progressista, especialmente na Vila Madalena, zona oeste paulistana. O Cuia, de preço mais acessível, sofre menos com ataques coordenados. Já o Clandestino, casa de fine dining, torna-se alvo preferencial sempre que o clima esquenta.

A chef relata discursos de ódio constantes nas redes sociais. Aprendeu a não compartilhar as agressões para não dar visibilidade aos autores. “Acho muito triste a forma que eles operam e que sejam meus compatriotas”, diz.

Comparações históricas e o peso da memória

Para Bel, a lógica do boicote remete a práticas de perseguição política vistas em regimes autoritários. Ela cita explicitamente a Alemanha dos anos 1930, pré-Hitler, como paralelo histórico. A comparação ecoa em outros depoimentos de empresários do setor.

  • Bar da Dona Onça (Janaína Torres) — Centro de SP
  • Clandestino e Cuia (Bel Coelho) — Vila Madalena
  • Mocotó (Rodrigo Oliveira) — Vila Medeiros
  • La Guapa (Paola Carosella) — Pinheiros
  • Casa Europa (Ipe Moraes) — Higienópolis

Empresários de grande porte entram na briga

Facundo Guerra, CEO do Grupo Vegas (Riviera Bar, Blue Note, Cine Joia), publicou vídeo no Instagram rebatendo o deputado Nikolas Ferreira. O parlamentar sugeriu que comerciantes de esquerda colocassem bandeira do PT na porta para facilitar o boicote.

Guerra argumentou que a mesma lógica atingiria negócios identificados com o bolsonarismo. Apontou que o eleitorado de esquerda representa mercado consumidor expressivo — e que identificação pública de orientação política em estabelecimentos comerciais beira práticas de perseguição.

A resposta de quem serve a todos

Rodrigo Oliveira, do Mocotó, adotou tom conciliador: “Acolher bem, sem olhar a quem, é nosso valor mais importante. Até boicotadores serão bem recebidos quando sentirem saudades”. Janaína Torres, do Bar da Dona Onça, diz não se importar com as listas — nem as de boicote, nem as de apoio. Considera a tentativa de rotular restaurantes por ideologia “fora da caixinha” e antidemocrática.

Janaína estava no Uruguai no segundo turno e não declarou voto publicamente. Mesmo assim, seu bar aparece nos dois lados da disputa. “Esse país tem que ser mais humano. As pessoas têm tantas certezas absolutas”, reflete.

O que observar nos próximos meses

O fenômeno expõe uma fratura que extrapola a gastronomia: o consumo virou ato político declaratório. Para donos de negócios, o risco não é apenas boicote pontual, mas a cristalização de clientelas por identidade ideológica — o que encolhe o mercado endereçável de ambos os lados.

Analistas de varejo sugerem monitorar três variáveis: (1) se as listas migram do digital para o físico (adesivos, camisetas, cardápios temáticos); (2) se plataformas de delivery e reserva passam a exibir filtros ideológicos; (3) se grandes redes e franqueadoras emitem diretrizes de neutralidade forçada. O termômetro real estará no faturamento do primeiro trimestre de 2025 — quando a euforia digital encontra a planilha de custos.