Economia

Bancos terão que gastar R$ 16 mi em educação financeira… mas especialistas dizem que não adianta nada

Banco com símbolo de educação financeira e dívidas renegociadas no programa Desenrola
Bancos devem investir R$ 16 mi em educação financeira, mas eficácia é questionada

As instituições que participaram do Desenrola 2.0 terão de destinar R$ 16 milhões a programas de educação financeira até maio de 2027. A obrigação vem da medida provisória 1.355 e equivale a 1% dos recursos garantidos pelo FGO. A dúvida que fica: esse dinheiro vai realmente impedir que as pessoas voltem a se endividar?

O programa de renegociação funcionou entre maio e agosto e fechou 5,54 milhões de contratos. O valor original das dívidas somava R$ 28,37 bilhões, mas caiu para R$ 5,7 bilhões depois de descontos médios de 80%. Desse total, R$ 1,6 bilhão foi parcelado com garantia do fundo — daí sai a conta de R$ 16 milhões.

Para onde vai o dinheiro

A Confederação Nacional das Instituições Financeiras (Fin) já reservou R$ 5 milhões para o Amplifica Educação Financeira, iniciativa conjunta de entidades como Febraban, Zetta e ABBC. Os outros R$ 11 milhões ainda não têm destino definido.

O Amplifica deve selecionar 10 a 12 organizações que já atuam na área. Cada uma pode receber até R$ 500 mil, além de acompanhamento técnico. A execução fica por conta da Artemisia, e a escolha final passa por um comitê com representantes do setor. O edital deve sair em novembro, se Tesouro e Fazenda aprovarem.

  • R$ 5 milhões → Amplifica (já definido)
  • R$ 11 milhões → ainda sem destinação
  • Até R$ 500 mil por organização selecionada
  • Prazo final: maio de 2027

O que os especialistas pensam — e por que discordam do modelo

Carlos Castro, CEO da SuperRico, é direto: produzir conteúdo não resolve. “A pessoa dificilmente vai consumi-lo e, mesmo que consuma, isso não necessariamente gera transformação.” Ele propõe algo mais prático: exigir que o cliente apresente renda e gastos mensais antes de contratar crédito. Se o orçamento não fechar, o empréstimo não sai.

Ana Rosa Vilches, da DSOP Educação Financeira, aponta o mesmo vício dos feirões de renegociação: a dívida some, mas o comportamento não muda. “Em nenhum momento há um cuidado de não voltar com essa dívida, que o ciclo se quebre e se torne, em vez de vicioso, virtuoso.” Ela cita casos de quem renegocia cartão de crédito, recupera o limite e volta a acumular débitos em meses.

O cenário que explica a urgência

Os números mostram por que a discussão importa. Em agosto, a inadimplência em empréstimos livres bateu 6,61% — recorde da série histórica iniciada em 2011. O UBS BB calcula que 2,7 milhões de brasileiros entraram para as listas de negativados entre o fim de 2025 e agosto, totalizando 84 milhões de pessoas, ou 51% da população adulta.

Enquanto isso, o Banco Central anunciou regras mais duras para ofertas de crédito a partir de março. Bancos terão de oferecer mais transparência, permitir bloqueio de propagandas e mostrar painel consolidado de dívidas. Para quem já está vulnerável, novas ofertas só poderão vir com autorização prévia e explícita — e apenas para melhorar condições, nunca para dar dinheiro novo.

O que observar daqui para frente

A eficácia do Amplifica depende de dois fatores: a aprovação burocrática nos próximos meses e a capacidade das organizações escolhidas de ir além de cartilhas e vídeos. O BC também começa a exigir práticas mais responsáveis na ponta, o que pode forçar os bancos a integrar educação financeira ao próprio processo de concessão — não como ação separada.

Para quem toma decisões de crédito ou acompanha o setor, o sinal é claro: renegociação em massa sem mudança de comportamento é enxugar gelo. Os R$ 16 milhões são um teste. Se virarem apenas mais material didático, o ciclo se repete. Se forem usados para criar barreiras reais ao superendividamento — como sugere Castro —, aí sim o jogo muda.