Economia

Braskem e os R$ 55 bi: por que o varejo ficou de fora da mesa?

Sede da Braskem com gráficos de dívida de R$ 55 bilhões e investidores pessoa física excluídos
Braskem negocia dívida bilionária sem incluir pequenos investidores de CRAs na mesa de negociação

A Braskem está renegociando uma dívida de R$ 55 bilhões, mas os donos de CRAs — títulos isentos de IR populares entre pessoas físicas — não têm assento na mesa. A exclusão pode custar caro não só a eles, mas ao próprio plano de recuperação.

Petroquímica optou por dialogar apenas com grandes credores: detentores de bonds internacionais e fundos locais com debêntures. Juntos, eles concentram cerca de R$ 39 bilhões. O restante, pulverizado em milhares de CPFs, assiste de fora.

O peso invisível dos CRAs

Certificados de Recebíveis do Agronegócio representam menos de 2% do passivo total. Parece pouco, mas advogados e consultores que assessoram esses investidores alertam: ignorá-los aumenta o risco de contestações judiciais e esfria o apetite por novos papéis do setor.

“Não atender ao mercado local prejudica o próprio mercado de capitais brasileiro”, afirma Clara Azzoni, sócia de Reestruturação do Felsberg Advogados. “Quem sai traumatizado de uma recuperação tende a evitar novos investimentos.”

Luiz Fabiano Saragiotto, da Journey Capital, resume a preocupação técnica: a estrutura precisa ser “implementável no mercado local para estruturas pulverizadas”. Sem isso, a execução do acordo esbarra na operacionalidade.

Cronologia apertada e números duros

  • 24 de agosto: pedido de recuperação extrajudicial com adesão de 39,6% dos créditos.
  • Outubro: apoio subiu para 40,3%.
  • 22 de novembro: prazo final para apresentar plano com maioria simples (50% + 1).

Alguns termos devem ser votados ainda esta semana. A janela é estreita e a pressão, alta.

Duas propostas, um abismo de valores

No fim de semana, empresa e grande credores trocaram minutas. Há convergência na arquitetura: oferta de ações de US$ 2,25 bilhões e conversão de dívida em equity. Mas os números divergem.

Proposta da Braskem (dia 23): acionistas de referência (Petrobras e IG4) colocam US$ 1,2 bilhão — metade no fechamento, metade em 12 meses, com opcional de US$ 500 milhões em 2029. Credores convertem US$ 2,8 bilhões.

Contraproposta dos grandes credores (dia 24): exigem US$ 1,85 bilhão dos sócios, à vista. Querem garantias sobre ativos no Brasil, EUA, Europa e na mexicana Braskem Idesa. A empresa oferece apenas as operações americanas.

O custo da demora

Sem acordo, a Braskem projeta caixa livre negativo em US$ 1,3 bilhão ao fim de 2024. O rombo chegaria a US$ 7,8 bilhões em 2031. A expectativa do mercado é que o fim das eleições acelere as negociações — mas o relógio não para.

O que observar daqui para frente

A inclusão (ou não) dos CRAs no plano final será o termômetro da disposição da companhia em preservar a base de investidores locais. Se o plano for aprovado sem contemplar a pulverização, ações de impugnação podem alongar o processo por meses. Para quem tem posição em títulos da empresa — ou pretende ter —, o sinal está dado: a governança da reestruturação importa tanto quanto os números.