Economia

Dólar salta para R$ 5,38 e Ibovespa afunda 3%: o que está por trás do caos

Gráfico financeiro mostra dólar a R$ 5,38 e Ibovespa em queda de 3% com tela de negociação
Dólar dispara para R$ 5,38 e Ibovespa afunda 3% no retorno dos mercados pós-eleição

O dólar fechou a R$ 5,38 e o Ibovespa despencou quase 3% na sessão que marcou o retorno dos mercados após o segundo turno. A combinação de incerteza fiscal local, juros altos nos EUA e uma safra de balanços fraca criou a tempestade perfeita para ativos brasileiros.

O movimento apaga o alívio da véspera, quando a moeda recuou 0,97% para R$ 5,35. O que explica a virada de mão tão brusca em 24 horas?

O tripé do estresse: fiscal, Fed e lucros

Três vetores atuam em sincronia. O primeiro é doméstico: o mercado precifica risco de expansão de gastos acima da regra do arcabouço fiscal. O segundo vem de fora — o Federal Reserve mantém juros elevados por mais tempo, drenando capital de emergentes. O terceiro é micro: balanços decepcionantes de grandes companhias retiram suporte fundamental da Bolsa.

Dados da B3 mostram saída líquida de R$ 2,1 bilhões de estrangeiros apenas nos três primeiros pregões de novembro. O fluxo negativo pressiona o câmbio e contamina os juros futuros.

Câmbio: patamar novo ou soluço passageiro?

A cotação de R$ 5,38 representa alta de 1,6% no dia e acumula valorização de 8,2% desde a reeleição. Técnicos observam a região de R$ 5,40 como resistência psicológica relevante. Se rompida, abre espaço para testes em R$ 5,50.

  • Mínima do dia: R$ 5,31
  • Máxima do dia: R$ 5,39
  • Variação intradia: 1,5%

O real figura entre as moedas emergentes de pior desempenho no mês, ao lado do peso argentino e da lira turca. O diferencial de juros Brasil-EUA, antes atrativo, encolhe com a curva americana inclinando para cima.

Bolsa: setores sensíveis a juros lideram perdas

O Ibovespa fechou aos 112.300 pontos, queda de 2,9%. Varejo, construção e utilities — setores intensivos em capital e sensíveis à Selic — caíram entre 4% e 6%. Petrobras (PETR4) recuou 3,2% mesmo com petróleo estável, sinalizando que o risco Brasil sobrepõe fundamentos setoriais.

Bancos grandes limitaram perdas a 1,5%, funcionando como relativo porto seguro pela exposição a crédito indexado à inflação. Mas o volume financeiro enxuto — R$ 18 bilhões — indica cautela generalizada.

O que observar daqui para frente

A agenda da semana concentra gatilhos de alta volatilidade. Na quarta-feira, o IPCA-15 de novembro dirá se a desinflação prossegue ou estanca. Na quinta, o Copom anuncia a Selic — consenso aponta manutenção em 13,75%, mas o comunicado será dissecado em busca de pistas sobre cortes em 2024.

No exterior, o payroll americano de sexta-feira dita o ritmo do Fed. Números de emprego fortes adiam cortes de juros lá fora e mantêm o dólar forte globalmente. Para o investidor brasileiro, a equação permanece: risco fiscal interno + juros externos altos = prêmio de risco elevado.

Acompanhe a curva de juros reais (NTN-B 2035) como termômetro: acima de 6% ao ano, sinaliza que o mercado exige prêmio extra para carregar Brasil. Foi exatamente onde fechou ontem.