As taxas do Tesouro Direto aceleraram forte nesta quarta-feira (28) e fecharam a manhã próximas de 15,3% ao ano nos prefixados longos. O movimento pegou investidores de surpresa ao se espalhar por todos os vencimentos.
O que começou concentrado nos papéis curtos ganhou fôlego e atingiu até os títulos de 2060. Mas há um detalhe crucial que explica essa virada — e ele não está apenas no exterior.
O tamanho do salto nos números
O Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037 liderou as altas: saltou de 14,86% para 15,08% ao ano, avanço de 22 pontos-base em poucas horas. O Prefixado 2032 não ficou para trás: subiu 21 pontos-base, indo a 15,27%.
Entre os atrelados à inflação, o IPCA+ 2032 registrou a maior elevação da taxa real: 19 pontos-base, de 7,78% para 7,97%. Os papéis mais longos, como o IPCA+ 2050, oscilaram menos — fecharam a 7,18%, mesmo nível da véspera.
- Prefixado 2029: 14,93% (+14 pontos-base no dia)
- Prefixado 2032: 15,27% (+21 pontos-base)
- Prefixado c/ Juros 2037: 15,08% (+22 pontos-base)
- IPCA+ 2032: IPCA + 7,97% (+19 pontos-base)
- IPCA+ 2050: IPCA + 7,18% (estável)
Por que o movimento mudou de direção
Na abertura, apenas os vencimentos curtos reagiam. Os longos mal se mexiam. Por volta das 11h, porém, a alta contaminou toda a curva. Analistas apontam que o gatilho inicial veio do exterior — os Treasuries subiam antecipando o Fed —, mas o combustível doméstico fez a diferença.
O Ibovespa caía 2,78% ao meio-dia, aos 170.828 pontos, sinalizando aversão a risco local. O mercado cobra sinais claros de ajuste fiscal e definição da equipe econômica para o novo mandato.
O fator que ninguém esperava: IOF sobre isentos
Pela manhã, O Globo publicou que o governo estuda recriar o IOF sobre LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas — hoje com alíquota zero. A notícia não traz alíquota nem confirmação oficial, mas bastou para azedar o humor.
Se confirmada, a medida reduziria a atratividade desses ativos e pressionaria a curva de juros reais. O consultor Otávio Araújo, da ZERO Markets Brasil, resume: “O mercado continua buscando sinais mais claros sobre um ajuste fiscal crível”.
Cenário externo: Fed e petróleo
Às 15h (horário de Brasília), o Federal Reserve anuncia sua decisão. Segundo o FedWatch do CME Group, 90% do mercado aposta na manutenção dos juros entre 3,75% e 4,00% ao ano. Mesmo assim, a incerteza sobre o comunicado mantém os Treasuries pressionados.
O Brent subia 1,27%, a US$ 115,33 o barril, adicionando pressão inflacionária global. O combo juros altos lá fora + ruído fiscal aqui dentro explica a abertura de prêmios na curva brasileira.
O episódio político que aumentou a temperatura
Para completar, o senador Flávio Bolsonaro (PL) viajou aos EUA em jatinho particular na noite de terça, saindo pela Argentina. A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, proibia sua saída e determinava entrega de passaportes — medida em investigação sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
A Polícia Federal cancelou os passaportes do senador, inclusive o diplomático. Ele nega irregularidades e classifica a decisão como intimidação. O ruído político eleva o prêmio de risco percebido por investidores.
O que observar daqui para frente
A curva de juros fechou a manhã com prêmios elevados em todos os vértices. Quem carrega posições prefixadas longas viu marcação a mercado negativa expressiva. Para quem pretende entrar, as taxas atuais voltaram a patamares atrativos — mas a volatilidade deve persistir.
Três variáveis ditam os próximos passos: o comunicado do Fed às 15h, eventuais anúncios fiscais do governo e o desdobramento da crise política. Mantenha posição dimensionada ao seu horizonte e evite decisões baseadas no ruído do dia.
