Economia

O segredo fiscal de Fonteles: como o Piauí virou laboratório para o Ministério da Fazenda

Rafael Fonteles, governador do Piauí, em retrato oficial, simbolizando sua política de controle de gastos estaduais
Governador Rafael Fonteles implementa regra fiscal que trava gastos do Piauí por dez anos

Rafael Fonteles, governador do Piauí e cotado para comandar a Fazenda num eventual quarto mandato de Lula, aprovou uma regra que trava o crescimento dos gastos estaduais por uma década. O movimento ocorre após o déficit primário saltar de R$ 147 milhões negativos na gestão anterior para R$ 3,7 bilhões no acumulado de seu governo.

Mas os números contam duas histórias diferentes. Enquanto o primário piorava, o resultado orçamentário — que mede receita realizada contra despesas empenhadas — virou superávit de R$ 309 milhões nos últimos quatro anos, revertendo o rombo de R$ 886 milhões do período anterior.

A regra que imita o arcabouço federal

Desde 2025, o Piauí opera com um teto próprio: despesas correntes não podem ultrapassar 95% das receitas correntes. O limite de crescimento segue a mesma lógica da União — inflação mais até 2,5% de ganho real ou 70% da expansão nominal da receita, valendo o menor dos dois. Saúde e educação ficam fora da trava.

Se a meta for descumprida, gatilhos automáticos bloqueiam reajustes salariais, criação de cargos e ampliação de benefícios. A nota B+ junto ao Tesouro Nacional permite ao estado captar com garantia da União, o que turbinou os investimentos.

Investimento recorde e a conta do pessoal

Nos quatro anos de Fonteles, o estado aplicou R$ 13,1 bilhões em investimentos — quase o dobro dos R$ 7,1 bilhões da gestão Wellington Dias. Em 2024 e 2025, o Piauí liderou a proporção de investimento sobre receita entre todos os entes federativos.

  • Gasto com pessoal: caiu de 42,3% da receita corrente líquida (2022) para 37,8% (2025)
  • Caixa líquido: reduziu de R$ 384 milhões para R$ 137,8 milhões no mesmo período
  • Meta 2025: superávit primário de R$ 535,9 milhões

O secretário Emílio Júnior afirma que o teto foi desenhado para evitar endividamento à próxima gestão e que o foco agora muda para qualidade do gasto.

O nó da educação e o dinheiro federal

O Tribunal de Contas do Estado investiga se o governo usou contribuição patronal extraordinária ao fundo de previdência dos servidores para inflar artificialmente o gasto com educação e atingir o piso constitucional de 25%. Por isso, as contas de 2023 e 2024 seguem sem aprovação — o julgamento deve sair este ano.

Enquanto isso, o Piauí é um dos dois únicos estados sem dívida com a União (ao lado do Tocantins). Isso garante acesso ao Fundo de Equalização Federativa, podendo render até R$ 250 milhões extras em 2025 via Propag.

O que muda se ele for para Brasília

Para Daniel Couri, ex-secretário adjunto de Orçamento Federal, o diagnóstico é positivo: houve controle de despesas e revisão de gastos. Mas ele alerta: “O governador encontrou uma situação bem diferente do que encontrará na União. O estado sempre teve dívida muito baixa, com necessidade de investimento, o que foi feito por Fonteles.”

O desafio federal envolve escala, rigidez orçamentária e política completamente distintas. O laboratório piauiense mostrou capacidade de desenhar regras e executar investimento — mas a prova de fogo, se vier, será em outro patamar.

O que observar daqui para frente

Acompanhe três frentes: o desfecho do julgamento no TCE-PI, que pode manchar o histórico fiscal; a execução do teto estadual em 2025, primeiro ano cheio da regra; e a eventual transição para a Fazenda, onde a receita não cresce por empréstimos garantidos e o teto constitucional de gastos já existe — mas a pressão por expansão é exponencialmente maior.