O quarto mandato de Lula começa com a faca e o queijo na mão para estabilizar a dívida e forçar a queda dos juros, mas o mercado financeiro ainda não comprou essa tese. A distância entre a capacidade técnica do governo e a credibilidade percebida pelos investidores nunca foi tão perigosa — nem tão cheia de oportunidades.
O endividamento público atingiu 82,9% do PIB, e a reação imediata pós-segundo turno foi brutal: o dólar disparou quase 9% e as taxas de juros longas subiram mais de 2,3 pontos percentuais em sessão única. A volatilidade assusta, mas esconde um diagnóstico diferente do pânico.
O déficit já encolheu, mas a conta de juros explodiu
Olhe para a trajetória recente antes de tirar conclusões precipitadas. O déficit primário, que beirava 2,4% do PIB em 2023 sob o peso de precatórios e dívidas estaduais, caiu para 0,4% em 2024 e deve fechar 2026 no mesmo patamar. Não há descontrole fiscal no horizonte próximo.
O nó está no custo da dívida. Para domar a conta de juros, o país precisa voltar a gerar superávits primários consistentes — a meta do próprio Arcabouço Fiscal (LC 200/2023) previa 1% do PIB para este momento, promessa não cumprida. Enquanto o gasto primário real cresce cerca de 6% ao ano, triplicando o ritmo do PIB, a matemática não fecha sem ajuste na despesa.
O roteiro que faltou apresentar ao mercado
Salto defende que não basta ajustar ano a ano; é preciso um programa completo, gradual e anunciado de uma vez. A credibilidade de quem financia a dívida exige previsibilidade. Veja os pilares que compõem o “plano ideal” descrito pelo colunista:
- Submissão real ao teto do Arcabouço: fim de manobras para estourar o limite de despesas.
- Corte profundo em gastos tributários: revisão de renúncias e isenções que erosionam a base de arrecadação.
- Contenção de supersalários e emendas parlamentares: gatilhos automáticos de correção.
- Reforma da previdência militar: equiparação de regras ao regime geral.
- Desvinculação do salário mínimo da previdência: preserva ganho real sem pressionar benefícios.
- Avanço na tributação da renda: fim de isenções em títulos privados e taxação efetiva dos mais ricos.
O erro a evitar, segundo a análise, é concentrar o ajuste apenas no lado da receita. A alavanca mestra para derrubar a taxa real de juros estrutural é reduzir a velocidade do gasto público.
O trunfo que a história guarda
Céticos apontam riscos, mas o currículo fiscal de Lula é um ativo subestimado. Nos dois primeiros mandatos (2003-2010), o superávit primário médio ficou entre 1,9% e 2,4% do PIB. A dívida/PIB caiu, a dívida externa virou residual e as reservas internacionais saltaram para patamares que protegem o país até hoje.
A burocracia do Tesouro amadureceu, a gestão da dívida ganhou sofisticação e a experiência do presidente em navegar mares revoltos está posta. “Se ele já fez no passado, por que não repetiria agora?”, questiona o autor. A resposta do mercado tem sido o silêncio cético.
Por que a aposta contra o governo pode estar errada
A frustração recente dos investidores — que precificaram um cenário alternativo — criou um pessimismo concentrado no diagnóstico, mas a ação política tende ao otimismo pragmático. Um ajuste brusco provocaria recessão e desmonte social; a inação mantém juros estratosféricos. O “caminho do meio”, gradual e crível, é a única rota que compatibiliza estabilidade com crescimento.
O Banco Central só conseguirá cortar a Selic com força quando a ancoragem fiscal for percebida como irreversível. Essa percepção não nasce de discursos, mas de nomes com reputação e de um cronograma legislativo claro.
O que observar nas próximas semanas
Fique atento à velocidade de anúncio da equipe econômica de peso e à tramitação das medidas de contenção de despesa no Congresso. O primeiro sinal concreto de que o “plano completo” saiu do papel será o termômetro real para o dólar, para a curva de juros e, no fim das contas, para o custo de capital do seu negócio. Quem se antecipar a essa virada de chave captura o prêmio do risco mal precificado.
