Justiça

Você não vai acreditar: áudio de servidor sugere veneno na água de aldeia

Servidor municipal afastado após áudio sugerir envenenamento de água em aldeia indígena no MS
Áudio de servidor sugere envenenar água da Aldeia Sassoró; PF investiga caso em Tacuru (MS).

A prefeitura de Tacuru (MS) confirmou que um servidor municipal é o autor de um áudio que sugere envenenar a água consumida por indígenas da Aldeia Sassoró. O funcionário foi afastado imediatamente e responderá a um Processo Administrativo Disciplinar. Mas a investigação não para por aí: a Polícia Federal entrou no caso e o governo federal montou uma força-tarefa para apurar uma onda de violência que teria eclodido após o segundo turno das eleições.

O áudio, o servidor e a reação do município

A gravação começou a circular no domingo (25), dia da votação. No conteúdo, uma voz masculina diz: “Tem que matar essas pragas na água”. O prefeito Rogério Torquetti reconheceu a autenticidade e identificou o autor como um servidor da infraestrutura, responsável por operar caminhão-caçamba — não pela distribuição de água, como chegou a ser especulado.

Em vídeo nas redes sociais, o prefeito classificou o funcionário como “excelente servidor”, mas admitiu a gravidade. O jurídico municipal determinou o afastamento preventivo e a abertura do PAD. Torquetti também gravou na aldeia ao lado de uma moradora, pedindo desculpas e dizendo que divergências políticas não justificam conflitos.

Governo federal aciona PF e cria força-tarefa

A repercussão obrigou a União a agir. O Ministério dos Povos Indígenas (MPI), ao tomar conhecimento na segunda-feira (26), encaminhou denúncia formal à Polícia Federal. O ministro Eloy Terena confirmou que uma força-tarefa envolvendo os ministérios dos Direitos Humanos e da Igualdade Racial foi criada para dar prioridade a casos em Mato Grosso do Sul e outras regiões.

O documento enviado à PF pede a investigação da autenticidade dos áudios, a identificação dos responsáveis e a avaliação de crimes. Também solicita medidas preventivas para proteger a comunidade e a segurança do abastecimento hídrico. O próprio MPI ressalta: não há comprovação de que a água tenha sido contaminada.

Violência pós-eleição: o mapa das denúncias em MS

O caso de Tacuru não é isolado. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) relatou uma série de episódios violentos no estado nas últimas semanas. Entre os casos citados pela entidade estão:

  • Naviraí: denúncias de mortes;
  • Coronel Sapucaia: atropelamentos (um indígena morreu na MS-289 na madrugada de sábado, 24);
  • Nioaque: suspeita de envenenamento de água;
  • Diversas cidades: ameaças de morte e manifestações racistas.

A APIB protocolou ofícios no MPF, na PF e nos ministérios da Justiça, Povos Indígenas e Direitos Humanos cobrando investigação e proteção às comunidades.

Liderança da Sassoró promete ir à Justiça

O cacique Ivan Montiel, que também é vereador em Tacuru, foi enfático em vídeo publicado nas redes sociais. Ele afirmou ter recebido o áudio e que a comunidade já identificou os envolvidos. Montiel declarou que buscará responsabilização nas esferas criminal e cível.

“Não vamos aceitar este tipo de preconceito contra nossa comunidade, ameaçando colocar veneno em água”, disse o cacique. Ele também defendeu o direito ao voto livre dos indígenas. A Aty Guasu, grande assembleia Guarani e Kaiowá, emitiu nota repudiando o racismo e as ameaças.

Sejusp nega “genocídio” e garante atuação

Procurada, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MS) divulgou nota afirmando que “não procede a afirmação de ocorrência de genocídio”. A pasta sustenta que as forças de segurança atuam mediante acionamento para preservar a ordem e prevenir confrontos no campo. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) informou que apura as ocorrências de forma independente.

O que observar daqui para frente

Três frentes ditam os próximos passos: o inquérito da Polícia Federal sobre o áudio de Tacuru, o desenrolar do PAD municipal e a investigação federal sobre o padrão de violência pós-eleitoral no estado. A segurança hídrica da Aldeia Sassoró segue monitorada, embora não haja evidência de contaminação real. Para empresários e investidores com ativos na região, o cenário exige atenção redobrada à estabilidade social e ao cumprimento de protocolos de consulta prévia às comunidades impactadas.