A Herdade do Rocim, produtora portuguesa que expandiu de uma única propriedade no Alentejo para oito regiões de Portugal em pouco mais de duas décadas, acaba de desembarcar oito rótulos nas prateleiras da World Wine em São Paulo. O portfólio revela uma estratégia agressiva de diversificação geográfica que coloca o consumidor brasileiro diante de um mapa líquido do país — do Douro aos Açores — sem sair da adega.
Mas nem tudo são flores: os preços variam de R$ 269 a R$ 498, e a pergunta que fica é se a qualidade justifica o investimento em um mercado cada vez mais competitivo.
Um clarete com pedigree de humor e preço de “gente grande”
O grande protagonista da degustação foi o Dr. Bruno Clarete 2023, produzido na Bairrada com 100% Baga. O rótulo estampa um Yorkshire de terno e gravata — alter ego do personagem Bruno Aleixo, fenômeno do humor português criado por João Moreira, Pedro Santo e João Pombeiro. “50% das pessoas adoram e 50% odeiam”, resume o enólogo Pedro Ribeiro. O vinho entrega taninos suaves, acidez vibrante e versatilidade gastronômica: carnes brancas, massas vermelhas, queijos ou simplesmente sozinho.
O porém: R$ 339,00 por uma garrafa de clarete — categoria tradicionalmente mais acessível — exige convicção.
O melhor custo-benefício vem do Alentejo profundo
Na relação qualidade-preço, o Rocim Alicante Bouschet 2024 (Vidigueira, Baixo Alentejo) levou a preferência. A uva, rara por ter cor na polpa e na película, garante concentração, estrutura e longevidade. “80 a 90% dos topos de gama do Alentejo hoje são monovarietais de Alicante ou levam a variedade no corte”, revela Ribeiro. A pisa a pé, feita com parcimônia, extrai taninos sedosos sem agressividade.
Preço: R$ 269,00. Um alentejano clássico, encorpado, com frutas maduras e toque mentolado — daqueles que pedem um sofá e um bom queijo curado.
Algarve: onde a acidez desafia o corpo
O Rocim Quinta da Pedragosa Tinto 2023 (Lagos, Algarve) vira o jogo. Blend de 60% Negra Mole — casta autóctone da região — e 40% Aragonez, estagiou três meses em cimento e um ano em barrica. O resultado é um vinho “vertical, seco, bem acentuado”, nas palavras do enólogo. Menos comercial, mais identitário. Frescor no lugar de potência.
Mesmo preço do Alicante: R$ 269,00. Para quem prefere tensão a aconchego.
A lista completa: oito rótulos, três regiões, uma estratégia
- Quinta de Pedragosa Branco 2024 (Algarve) — Arinto + Malvasia, cítrico, tropical, untuoso — R$ 269
- Rocim Verdelho 2025 (Vidigueira) — 100% Verdelho, sem carvalho, fresco e leve — R$ 269
- Rocim Touriga (Vidigueira) — 100% Touriga Nacional, 8 meses em carvalho francês, morango, cereja, mineralidade — R$ 269
- Bela Luz 2024 Tinto e Branco (Douro) — vinhas velhas centenárias, castas não declaradas, “próximos da perfeição” — R$ 498 cada
O projeto Bela Luz merece capítulo à parte: uvas de vinhas tão antigas que o próprio enólogo não consegue mapear todas as castas. Dois vinhos que sintetizam o terroir do Douro em estado bruto.
Argentina entra na rota: evento duplo em São Paulo
Enquanto Portugal consolida presença, a Argentina prepara ofensiva. Nos dias 27 e 28 de outubro, o Argentina Reloaded — projeto da sommelière premiada Paz Levinson — traz mais de 40 rótulos de produtores de diferentes regiões, incluindo a ainda pouco explorada Quebrada de Humahuaca (Jujuy, extremo norte, altitude extrema).
Dois formatos, dois públicos:
- Terça (27), 20h–23h: Jantar harmonizado no restaurante Cora (Vila Buarque), menu à la carte + seleção da Paz Levinson.
- Quarta (28), 19h–22h: Degustação aberta no Tão Longe, Tão Perto (Barra Funda) — R$ 50 entrada + R$ 15 por taça extra. Sommelière Gabriela Monteleone na curadoria.
O que observar daqui para frente
A Herdade do Rocim prova que escala e identidade não se excluem: 35 rótulos só no Alentejo, presença em oito regiões, e ainda assim vinhos com assinatura de terroir. Para o investidor ou importador, o case ensina que diversificação geográfica bem executada cria portfólio à prova de safras ruins e modismos.
Já o movimento argentino — com foco em origem, altitude e variedade genuína — sinaliza que o consumidor brasileiro está maduro para além de Malbec de Mendoza. Quem chegar primeiro nas regiões “novas” (Jujuy, Algarve, Bairrada de clarete) leva a vantagem de narrativa.
Fique de olho: a próxima safra de Bela Luz e a evolução dos brancos de Verdelho alentejano podem redefinir o patamar de preço que o mercado aceita pagar por Portugal no Brasil.
