Economia

Trigo cai 13% em Chicago, mas pão não para de subir no Brasil

Gráfico comparativo: trigo cai 13% em Chicago mas pão sobe no Brasil
Trigo despenca 13% na bolsa de Chicago enquanto pão francês mantém alta nas padarias brasileiras.

O contrato de dezembro do trigo em Chicago despencou para US$ 6,10 por bushel, uma queda de 13% em relação ao pico de US$ 7,04 registrado no dia 10. No Paraná, referência nacional, a tonelada trava em R$ 1.564, segundo o Cepea. A pergunta que fica: se a commodity fica mais barata lá fora, por que o consumidor brasileiro segue pagando mais caro pelo pão?

O choque direto na padaria

Nos últimos 30 dias, o pão francês subiu 1,15% na capital paulista. No acumulado do ano, a alta chega a 2,7%, de acordo com a Fipe. A retração internacional ainda não atravessou a cadeia de custos — moagem, logística e câmbio — para chegar à gôndola. Enquanto o produtor rural sente o preço cair, o consumidor urbano sente o bolso apertar.

Por que o mercado internacional afrouxou?

A oferta global deu sinais de alívio nas últimas semanas. A Argentina, peça-chave para o abastecimento do Brasil, revisou a safra para cima: cerca de 24 milhões de toneladas, acima dos 21 milhões projetados inicialmente. Não é recorde, mas alivia a pressão.

Outros polos também mexeram no tabuleiro:

  • União Europeia: safra de 124 milhões de t (ante 126 mi previstos), reduzindo exportações para 29 mi.
  • Austrália: 29,9 milhões de t, queda de 17% sobre o ciclo anterior.
  • Canadá: 36 milhões de t (-11%), ainda acima da média de 5 anos; exportações podem bater 30 mi.
  • Rússia e Ucrânia: volumes estáveis, mas escoamento travado pelo conflito.

No total, o USDA projeta produção mundial de 822 milhões de toneladas em 2026/27, contra 844 milhões no ciclo anterior. A queda global existe, mas a reposição dos estoques depende de logística — e aí mora o risco.

O drama brasileiro: safra mínima, importação recorde

O Brasil colheu apenas 5,7 milhões de toneladas, uma das piores marcas da história. O consumo interno beira 12 milhões. A conta não fecha: a Conab estima importações de pelo menos 7,1 milhões de toneladas, volume que pode ser o maior já registrado.

Essa dependência externa transforma o câmbio no principal formador de preço. Mesmo com Chicago em baixa, um dólar pressionado anula o ganho na conversão. Some-se o frete interno e a margem da indústria: o resultado é a desconexão entre a bolsa e a padaria.

Exportações mostram o tamanho do buraco

O país embarcou apenas 970 mil toneladas de trigo nos dez primeiros meses do ano. No mesmo período de 2025, foram 2,3 milhões. A queda de 58% escancara a falta de excedente exportável. Para comparação, a soja caminha para recorde de 108 milhões de toneladas no acumulado até outubro, enquanto o milho deve fechar o ano bem abaixo dos 42 milhões do ciclo passado.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o próximo movimento: o ritmo de colheita argentina (que define o preço de paridade no porto brasileiro), a taxa de câmbio — cada centavo de dólar vale milhões na conta de importação — e a disposição da indústria em repassar a queda da matéria-prima. Se o real se firmar abaixo de R$ 5,70 e a safra argentina confirmar os 24 milhões, há espaço para alívio real no varejo. Caso contrário, o pão segue subindo enquanto Chicago cai.