O mercado financeiro exige um nome para o Ministério da Fazenda agora como sinal de compromisso fiscal, mas Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu tirar um tempo de “ressaca cívica” antes de decidir. O presidente prioriza a recuperação da voz e o descanso após a maratona eleitoral, adiando a comemoração do próprio aniversário para o fim de semana.
Essa demora não é gratuita. Na segunda-feira (26), o dólar registrou a maior alta diária desde 1999, forçando o Tesouro Nacional a uma intervenção histórica de R$ 14,8 bilhões em recompra de títulos para estancar a sangria. A terça-feira (27) trouxe alívio parcial, mas a tensão permanece: a credibilidade fiscal está refém do calendário do Palácio do Planalto.
O precedente que o mercado não quer repetir
A história recente mostra que Lula não tem pressa. Em 2022, Fernando Haddad só foi confirmado 40 dias após o segundo turno. Em 2002, Antônio Palocci foi anunciado apenas em 10 de dezembro, durante viagem a Washington. A diferença agora é a fragilidade das contas públicas: não há margem para um vácuo de poder de um mês e meio.
Um banqueiro ouvido pela reportagem resume o cenário: a urgência de Lula em definir o comando da economia é maior do que seria a de um eventual governo de oposição, dada a desconfiança pré-existente com a trajetória da dívida.
Os cotados e o nó jurídico
Dois nomes lideram as apostas nos bastidores, mas cada um carrega complexidades distintas:
- Rafael Fonteles (PT): Governador reeleito do Piauí. Lula o quer na equipe, mas a saída exigiria renúncia ao mandato. A narrativa seria de “missão nacional” atendendo a convocação presidencial.
- Geraldo Alckmin (PSB): Vice-presidente. Opção de menor atrito institucional, mas que concentraria poder político e econômico em uma única figura.
Fiscal não é prioridade? O recado de Guimarães
Enquanto o mercado cobra o pacote de cortes, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, foi direto: as prioridades legislativas imediatas são a PEC da Segurança Pública, a MP do fim das bets e a PEC da Tarifa Zero no transporte. O ajuste fiscal fica para depois — ou para o atual ministro, Dario Durigan, executar.
A “ponte” de Durigan: medidas prontas na gaveta
Para ganhar tempo sem paralisar a agenda, a equipe econômica preparou um cardápio de ações que podem ser disparadas ainda sob a gestão atual. Duas PECs estão desenhadas:
- Permitir ao Executivo congelar volume maior de verbas se a arrecadação cair, mirando o centro da meta fiscal (não apenas o piso).
- Prorrogar a vigência do IPI até o Imposto Seletivo da reforma tributária entrar em vigor.
Essas medidas, se aprovadas, entregariam um “ponto de partida melhor” para o futuro titular da Fazenda. A aposta do Planalto é que o anúncio de ações concretas compre tempo para a escolha do nome sem pânico.
O que observar nas próximas semanas
A trégua do dólar na terça-feira (27) foi comprada com recompras agressivas do Tesouro — a terceira maior da série histórica. O custo dessa calmaria artificial é alto e não se sustenta sem anúncio político. O investidor deve monitorar dois gatilhos: a disposição do Congresso em votar as PECs de Durigan sem um ministro político forte para articulá-las e a data limite que Lula estipular internamente para o anúncio. Se a “ressaca” passar de novembro, o custo da rolagem da dívida pode subir mais uma vez.
