Educação

Como um aluno da rede pública chegou à 2ª fase do ITA com 12 medalhas e aprovação na USP

Pedro Henrique Veneranda, 16 anos, aluno da rede pública de Fortaleza com medalhas olímpicas
Pedro Henrique, 16 anos, da escola pública à 2ª fase do ITA e aprovação na USP

Pedro Henrique Veneranda, 16 anos, concluiu a segunda fase do vestibular mais difícil do Brasil depois de colecionar 12 medalhas em olimpíadas científicas e garantir vaga na USP via Enem. O detalhe decisivo: todo o percurso começou dentro da escola pública de Fortaleza.

O caso expõe como políticas de preparação direcionada a carreiras militares estão criando rotas de mobilidade que o ensino regular, sozinho, não consegue oferecer. Mas o efeito mais relevante aparece quando se olha para a escalabilidade do modelo.

O convite que mudou a rota

Aluno da Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Jenny Gomes, no bairro Aeroporto, Pedro não tinha o ITA no radar até uma professora sugerir o PreparaITA Ceará — projeto da rede estadual focado em instituições militares de ensino superior.

“Foi algo que me fez conquistar coisas que, na época, eu nem sequer imaginava como possibilidades para mim”, relata o estudante. O programa funciona como ponte: identifica talento bruto na rede pública e conecta a uma estrutura de cursinho de alta performance.

Resultados que comprovam o funil

O histórico do adolescente desenha um padrão de consistência rara:

  • 12 medalhas em olimpíadas acadêmicas (ouro na Olimpíada de Matemática do IFCE, bronze na OBMEP)
  • Aprovação na USP (Matemática) via Enem
  • Classificação em seleções da UECE e de instituições militares
  • Conclusão da segunda fase do ITA (20 a 23 de outubro de 2026)

Cada conquista funcionou como degrau para a seguinte — a bolsa integral no cursinho ITA/IME do Colégio Ari de Sá veio como reconhecimento direto desse acúmulo.

Rotina de alto rendimento aos 16 anos

Hoje, a agenda do estudante espelha a de um atleta de elite: aulas pela manhã e início da tarde, estudos individuais até a noite, aulas aos sábados e simulados aos domingos. A preparação exigiu morar longe dos pais durante a semana.

Pedro descreve a estratégia: “procuro equilibrar as disciplinas e acompanhar os conteúdos à medida que são apresentados, priorizando os assuntos trabalhados em aula”. A abordagem evita o acúmulo de lacunas — erro comum em quem estuda por conta própria.

Anatomia da segunda fase do ITA

Quatro dias consecutivos de provas dissertativas separam os candidatos das vagas:

  • Matemática
  • Química e Física
  • Português (objetivas) + Redação

Pedro relatou nervosismo no primeiro dia, mas estabilidade nos demais. Avaliou Matemática e Química como mais acessíveis que na edição anterior; Física exigiu mais esforço; Português consumiu tempo além do previsto, mas a redação saiu dentro do planejado.

“Creio que cumpri ao longo dessa semana de provas o objetivo de sair a cada dia com a mente tranquila, de que entreguei tudo o que era possível naquele momento”, resume.

Redação: o diferencial invisível

A professora Rosa Luiza, que acompanhou Pedro no terceiro ano e no PreparaITA, destaca que a prova do ITA exige estrutura argumentativa distinta do Enem: defesa de ponto de vista com rigor lógico dentro de limite estrito de linhas.

A preparação incluiu análise de redações de anos anteriores, simulados regulares e correções focadas em eliminar desvios recorrentes. O método transformou uma habilidade natural em ferramenta competitiva.

O que observar daqui para frente

O resultado final do ITA sairá nas próximas semanas. Independentemente do desfecho, o caso ilustra três variáveis que investidores e gestores de educação deveriam monitorar:

  • O custo-benefício de programas-focos (PreparaITA) versus expansão genérica de carga horária
  • A capacidade da rede pública de reter talentos quando oferece trajetórias técnicas claras
  • O efeito multiplicador: cada aluno aprovado vira referência para dezenas de colegas na mesma escola

Pedro quer atuar no desenvolvimento de aeronaves e equipamentos astronáuticos — foguetes, satélites. Se o Brasil quiser soberania tecnológica nessa cadeia, precisará de milhares como ele. O funil existe. A questão é se haverá escala.