Economia

Dólar cai 1% e juros futuros recuam: o que o mercado espera do governo agora

Gráfico financeiro mostra dólar a R$ 5,35 e queda nos juros futuros 2032
Dólar recua 1% e juros futuros aliviam após semanas de volatilidade extrema no mercado brasileiro

O dólar fechou a terça-feira (27) em queda de quase 1%, a R$ 5,35, e os juros futuros para 2032 recuaram após três semanas de volatilidade extrema. O Ibovespa limitou a perda a 0,5%, voltando ao patamar de dois meses atrás. A calmaria, porém, esconde uma cobrança silenciosa: investidores querem sinais fiscais concretos — e querem agora.

Na segunda-feira (26), a moeda americana havia saltado mais de 8% e a bolsa derretido 13%. O movimento brusco forçou o mercado a recompor posições, mas não apagou a dúvida central: qual será a âncora fiscal do novo mandato?

O recado dos analistas: celeridade, não promessas

Para Andréa Angelo, economista da Warren Investimentos, a prioridade única é conter a trajetória da dívida pública. “Não é humor que a gente está falando, mas mudar a percepção mesmo de investimento, mudar a percepção de política econômica que esse governo tende a fazer no próximo mandato”, afirma. A leitura é compartilhada por boa parte da mesa de operações: o tempo de discursos acabou.

O mercado precificou nas últimas semanas um prêmio de risco elevado. A taxa de juros real longa subiu o suficiente para tornar o carry trade atrativo novamente — o que, paradoxalmente, ajuda a segurar o dólar no curto prazo.

Banco Central sinaliza: sem intervenção, por enquanto

Gabriel Galípolo, presidente do BC, foi direto: a autoridade monetária atua apenas em caso de disfuncionalidade de mercado, não para defender nível de câmbio. “Quando a gente vir, a gente vai atuar”, disse. A fala foi lida como um recado de que o colchão de reservas (acima de US$ 350 bilhões) dá conforto para não queimar dólares em ruído eleitoral.

André Perfeito, economista-chefe da Garantia Capital, concorda: “Não há motivos macroeconômicos que levem a esperar uma escalada do dólar”. Ele cita dois pilares: juros reais elevados atraindo fluxo financeiro e balança comercial positiva sustentando a conta corrente.

O que está na mesa para as próximas semanas

  • Arcabouço fiscal: envio de proposta ao Congresso ainda em novembro é o teste de credibilidade.
  • Meta de resultado primário: se zerar o déficit em 2024 continua no radar ou será postergada.
  • Composição da equipe econômica: nomes para Fazenda e Planejamento definirão o tom da execução.
  • Despesas obrigatórias: qualquer sinal de revisão de indexadores ou gatilhos de crescimento vegetativo.

Por que o Ibovespa não voltou ao topo?

As ações seguem pressionadas porque o choque de segunda-feira realocou capital de risco para renda fixa. Com a curva de juros real acima de 6% ao ano no vértice longo, o custo de oportunidade para bolsa subiu. Setores sensíveis a juros (construção, varejo, utilities) lideram as perdas acumuladas no mês.

O fluxo estrangeiro, que entrou forte no primeiro semestre, virou líquido vendedor em outubro. A reversão depende de clareza fiscal — e de uma comunicação que reduza a assimetria de informação entre Brasília e a Faria Lima.

O que observar daqui para frente

O próximo gatilho não virá de pesquisa eleitoral nem de discurso de posse. Virá de caneta: projeto de lei, medida provisória ou portaria que mova a agulha da dívida/PIB. Enquanto isso não acontece, o dólar deve oscilar na banda R$ 5,25–5,45 e os juros longos seguem sensíveis a cada vazamento de Brasília. Quem tem caixa em dólar ganha tempo; quem precisa rolar dívida em real paga o prêmio da incerteza.