A francesa EDF Power Solutions confirmou que vai disputar os três principais leilões de infraestrutura energética previstos para os próximos meses no Brasil. A estratégia sinaliza uma mudança de escala na atuação do grupo, que até agora mantinha presença tímida em transmissão e nenhuma em armazenamento.
O anúncio foi feito pelo CEO no Brasil, André Salgado, durante o evento Brazil Wind Power. A empresa já tem projetos de baterias desenvolvidos em várias regiões e conta com suporte tecnológico da matriz francesa, que opera dezenas de instalações no Reino Unido.
O primeiro leilão de baterias da história
O certame de dezembro será o primeiro a contratar sistemas de armazenamento em larga escala no país. A EDF chega com vantagem: engenharia pronta e experiência internacional comprovada. O objetivo é garantir contratos de longo prazo que viabilizem o investimento inicial.
Especialistas do setor estimam que o leilão deve contratar entre 500 MW e 1 GW de capacidade. A remuneração deve combinar receita fixa por disponibilidade com participação no mercado de curto prazo.
Transmissão: terceira tentativa, aposta maior
A EDF participou dos dois últimos leilões de transmissão e perdeu. Em março de 2027, tentará novamente. Atualmente, o grupo possui apenas um empreendimento no segmento — pouco para uma empresa do seu porte.
O próximo certame deve ofertar cerca de 15 lotes, com investimentos estimados em R$ 20 bilhões. A EDF mira lotes que conectem regiões com alta geração renovável a centros de consumo.
- Leilão de baterias: dezembro de 2024
- Leilão de transmissão: março de 2027
- Relicitações de hidrelétricas: janela abre nos próximos anos
Hidrelétricas: do novo à reversível
Na geração, o foco são Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e aquisições de ativos existentes. A EDF já opera duas usinas no Mato Grosso. Se o governo relicitar grandes usinas com concessões vencendo, o grupo entrará na disputa.
Outra frente é a hidrelétrica reversível — tecnologia em que a EDF é referência global. O Brasil começou a discutir o modelo recentemente, e a empresa quer ser protagonista na introdução dessa solução de armazenamento de longa duração.
Eólico na Bahia: expansão travada por cortes e funding
O parque de 140 MW em construção na Bahia segue em obras. A segunda fase, porém, depende de duas variáveis fora do controle da empresa: a redução dos cortes de geração (curtailment) que afetam a rentabilidade, e a disponibilidade de financiamento de longo prazo a taxas competitivas.
O problema dos cortes atinge especialmente o Nordeste, onde a transmissão não acompanhou a expansão eólica e solar. Sem escoamento garantido, novos projetos ficam mais arriscados para bancos e investidores.
O que observar nos próximos meses
A participação da EDF no leilão de dezembro será o primeiro teste real de apetite por baterias no Brasil. Se o certame atrair competição forte e preços competitivos, abre-se caminho para uma nova classe de ativos no setor.
Na transmissão, o resultado de março de 2027 dirá se a persistência da francesa compensa. Nas hidrelétricas, o calendário de relicitações — ainda indefinido pelo governo — ditará o ritmo. Para o mercado, a entrada de um player com capital paciente e tecnologia madura em três frentes simultâneas é o sinal mais claro de que a transição energética brasileira entrou na fase de execução em escala.
