A Petrobras deve confirmar no dia 1º de novembro um novo aumento de 7,32% no preço do querosene de aviação (QAV) para as distribuidoras. Se o reajuste se concretizar, o litro do combustível saltará de R$ 6,24 para R$ 6,69, aprofundando uma crise de custos que já consome quase metade da receita operacional das companhias aéreas.
O anúncio chega poucas semanas após uma alta de 11,76% aplicada em outubro. A combinação dos dois reajustes coloca o setor em alerta máximo: a fatura do combustível, que historicamente girava em torno de 32% das despesas, agora representa 45% do total. A conta, como de costume, tende a migrar para o preço da passagem.
O efeito cascata nas contas das aéreas
Dados da Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas) mostram que o QAV acumula valorização de 90% desde março. O gatilho foi a escalada de tensões no Oriente Médio, especificamente após os ataques dos EUA e Israel ao Irã, que dispararam o barril do petróleo tipo Brent para a casa dos US$ 114 — alta de quase 60% no mesmo período.
Para o empresário que negocia contratos de fretamento ou gerencia viagens corporativas, a equação é simples e brutal:
- Custo variável dominante: Combustível é o maior custo individual da operação, superando até mesmo folha de pagamento e arrendamento de aeronaves.
- Repasse inevitável: Em setembro, as passagens subiram 9,66%, empurrando o IPCA para 0,82% no mês.
- Fim do alívio tributário: O governo zerou impostos federais sobre gasolina e diesel, mas deixou a desoneração do QAV expirar justamente no pico da alta.
Por que o governo não segurou o QAV?
A decisão política expõe uma assimetria. Enquanto a gasolina e o diesel ganharam isenção de PIS/Cofins e Cide para conter a inflação ao consumidor final, o querosene de aviação ficou de fora da prorrogação do benefício. O argumento oficial foca no impacto fiscal, mas o setor aéreo argumenta que a medida penaliza um segmento estratégico para a conectividade e o turismo.
Essa discrepância cria um cenário de incerteza regulatória. As companhias não conseguem travar contratos de longo prazo com previsibilidade de custo, o que inibe investimentos em expansão de malha e renovação de frota.
O que observar daqui para frente
O próximo dado crítico sai em 1º de novembro, com a oficialização do preço nas refinarias. Mas três variáveis vão ditar o ritmo das passagens nos próximos trimestres:
- Câmbio: O dólar pressiona o custo do barril em moeda local.
- Geopolítica: Qualquer expansão do conflito no Oriente Médio eleva o prêmio de risco do Brent.
- Política de preços da Petrobras: A estatal mantém a paridade de importação (PPI) como referência, mas sinais de intervenção política na gasolina geram dúvidas sobre a autonomia na definição do QAV.
Para o investidor, o sinal é de compressão de margens no curto prazo. Para o gestor de viagens, a recomendação prática é antecipar compras e travar tarifas sempre que possível, pois a tendência estrutural do combustível continua altista enquanto não houver trégua no front externo ou mudança na tributação doméstica.
